“A CULTURA DO CONSUMO FAZ MUITO BARULHO, PORQUE ESTÁ VAZIA”

O IMPÉRIO DO CONSUMO – por Eduardo Galeano

Em Dezembro do ano passado, publicámos uma parte deste excelente artigo de Eduardo Galeano. Escrito em 2005, continua de uma grande actualidade. Vamos publicá-lo na íntegra. Transcrevêmo-lo do blogue Carta Maior ao qual agradecemos. A tradução foi revista para a norma do português europeu e sem aplicação do AO.

A explosão do consumo no mundo actual produz mais ruído do que todas as guerras e mais barafunda do que todos os carnavais. Como diz um velho provérbio turco, aquele que bebe a sua conta, fica bêbedo a dobrar. O alarde do consumo enevoa o olhar; esta grande bebedeira universal parece não ter limites, nem no tempo nem no espaço. Mas a cultura de consumo faz muito barulho, tal como o tambor, porque está vazia; e na hora da verdade, quando o estrondo cessa e acaba a festa, o bêbedo acorda, sozinho, acompanhado pela sua sombra e pelos pratos quebrados que tem de pagar. A expansão da procura colide com as fronteiras impostas pelo próprio sistema que a gera.

O sistema necessita de mercados cada vez mais abertos e mais amplos tal como os pulmões precisam de ar e, ao mesmo tempo, requer que os preços das matérias-primas e da força de trabalho humana estejam em baixa, como estão. O sistema fala em nome de todos, endereça a todos as suas imperiosas ordens de consumo, difunde entre todos a febre consumista; mas não corre bem: para quase todo a gente. esta aventura começa e termina no ecrã do televisor. A maioria, que contrai dívidas para ter coisas, acaba por apenas ter dívidas para pagar as suas dívidas que geram novas dívidas, e acaba consumindo fantasias que, às vezes, materializa cometendo delitos. O direito ao desperdício, privilégio de poucos, afirma-se ser a liberdade de todos.

Diz-me quanto consomes e dir-te-ei quanto vales. Esta civilização não deixa dormir as flores, nem as galinhas, nem as pessoas. Nas estufas, as flores estão expostas à luz contínua, para fazer com que cresçam mais rapidamente. Nas fábricas de ovos, a noite também está proibida para as galinhas. E as pessoas estão condenadas à insónia, pela ansiedade de comprar e pela angústia de pagar. Este modo de vida não é bom para as pessoas, mas é muito bom para a indústria farmacêutica. Os EUA consomem metade dos calmantes, ansiolíticos e demais drogas químicas que são vendidas legalmente no mundo; e mais da metade das drogas proibidas que são vendidas ilegalmente, o que não é coisa de somemos quando se leva em conta que os EUA contam com apenas cinco por cento da população mundial.

Gente infeliz, essa que vive comparando-se”, lamenta uma mulher no bairro de Buceo, em Montevideu. A dor de já não ser, que outrora cantava o tango, deu lugar à vergonha de não ter. Um homem pobre é um pobre homem. “Quando não tens nada, pensas que não vales nada“, diz um rapaz no bairro Villa Fiorito, em Buenos Aires. E outro confirma, na cidade dominicana de San Francisco de Macorís: Meus irmãos trabalham para as marcas. Vivem a comprar etiquetas, e vivem suando feito loucos para pagar as prestações.

Invisível violência do mercado: a diversidade é inimiga da rendibilidade, e a uniformidade é que manda. A produção em série, em escala gigantesca, impõe em todas partes as suas normas obrigatórias de consumo. Esta ditadura da uniformização obrigatória é mais devastadora do que qualquer ditadura de partido único: impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar.

O consumidor exemplar é o homem imobilizado. Esta civilização, que confunde quantidade com qualidade, confunde gordura com boa alimentação. Segundo a revista científica The Lancet, na última década a “obesidade mórbida” aumentou quase 30% entre a população jovem dos países mais desenvolvidos. Entre as crianças norte-americanas, a obesidade aumentou 40% nos últimos dezesseis anos, segundo recente investigação do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Colorado. O país que inventou as comidas e bebidas light, os diet food e os alimentos fat free, tem a maior quantidade de gordos do mundo. O consumidor exemplar desce do carro só para trabalhar e para ver televisão. Sentado em frente ao ecrã, passa quatro horas por dia devorando comida plástica.

Vence o lixo fantasiado de comida: essa indústria está a conquistar os paladares do mundo e está a demolir as tradições da cozinha local. Os costumes do bom comer, que vêm de longe, contam, em alguns países, milhares de anos de refinamento e diversidade e constituem um património colectivo que, de algum modo, está nos fogões de todos e não apenas na mesa dos ricos. Essas tradições, esses sinais de identidade cultural, essas festas da vida, estão a ser esmagadas, de modo fulminante, pela imposição do saber químico e único: a globalização do hambúrguer, a ditadura do fast food. A plastificação da comida em escala mundial, obra do McDonald´s, do Burger King e de outras fábricas, viola com sucesso o direito à autodeterminação da cozinha: direito sagrado, porque na boca a alma tem uma das suas portas.

O Campeonato do Mundo de Futebol de 1998 confirmou-nos, entre outras coisas, que o cartão MasterCard tonifica os músculos, que a Coca-Cola proporciona eterna juventude e que o menu do McDonald´s não pode faltar na barriga de um bom atleta. O imenso exército do McDonald´s dispara hambúrgueres sobre as bocas das crianças e dos adultos no planeta inteiro. O duplo arco dessa M serviu como estandarte, durante a recente conquista dos países do Leste Europeu.

As bichas ás portas do McDonald´s de Moscovo, inaugurado em 1990 com bandas e fanfarras, simbolizaram a vitória do Ocidente com tanta eloquência como a queda do Muro de Berlim. Um sinal dos tempos: essa empresa, que encarna as virtudes do mundo livre, nega aos seus empregados a liberdade de se filiar em sindicatos. O McDonald´s viola, assim, um direito legalmente consagrado nos muitos países onde opera. Em 1997, trabalhadores, membros disso a que a empresa chama de Macfamília, tentaram sindicalizar-se num restaurante de Montreal, no Canadá: o restaurante fechou. Mas, em 98, outros empregados do McDonald´s, numa pequena cidade próxima a Vancouver, conseguiram essa conquista, digna do Guinness. As massas consumidoras recebem ordens num idioma universal: a publicidade conseguiu aquilo que o esperanto quis e não conseguiu.

Qualquer um entende, em qualquer lugar, as mensagens que a televisão transmite. No último quarto de século, os gastos em publicidade dobraram no mundo todo. Graças a isso, as crianças pobres bebem cada vez mais Coca-Cola e cada vez menos leite e o tempo de lazer vai-se tornando tempo de consumo obrigatório. Tempo livre, tempo prisioneiro: as casas muito pobres não têm cama, mas têm televisão, e a televisão tem a palavra. Comprado a prestações, esse animalzinho é uma prova da vocação democrática do progresso: não escuta ninguém, mas fala para todos.

Pobres e ricos conhecem, assim, as qualidades dos automóveis do último modelo, e pobres e ricos ficam sabendo das vantajosas taxas de juros que este ou aquele banco oferece. Os especialistas sabem transformar as mercadorias em mágicos conjuntos contra a solidão. As coisas possuem atributos humanos: acariciam, fazem companhia, compreendem, ajudam, o perfume beija e o carro é o amigo que nunca falha. A cultura do consumo fez da solidão o mais lucrativo dos mercados.

Os vazios no peito são preenchidos enchendo-os de coisas, ou sonhando com fazer isso. E as coisas não só podem abraçar: elas também podem ser símbolos de ascensão social, salvo-condutos para atravessar as alfândegas da sociedade de classes, chaves que abrem as portas proibidas. Quanto mais exclusivas, melhor: as coisas escolhem-nos e salvam-nos do anonimato das multidões. A publicidade não informa sobre o produto que vende, ou faz isso muito raramente. Isso é o que menos importa. A sua função primordial consiste em compensar frustrações e alimentar fantasias. Comprando este creme de barbear, você quer transformar-se em quem?

O criminologista Anthony Platt observou que os delitos das ruas não são fruto somente da extrema pobreza. Também são fruto da ética individualista. A obsessão social pelo sucesso, diz Platt, incide decisivamente sobre a apropriação ilegal das coisas. Eu sempre ouvi dizer que o dinheiro não trás felicidade; mas qualquer pobre que veja a televisão tem motivos de sobra para acreditar que o dinheiro trás algo tão parecido que a diferença é assunto para especialistas.

Segundo o historiador Eric Hobsbawm, o século XX marcou o fim de sete mil anos de vida humana centrada na agricultura, desde que apareceram os primeiros cultivos, no final do paleolítico. A população mundial torna-se urbana, os camponeses tornam-se cidadãos. Na América Latina temos campos sem ninguém e enormes formigueiros urbanos: as maiores cidades do mundo, e as mais injustas. Expulsos pela agricultura moderna de exportação e pela erosão das suas terras, os camponeses invadem os subúrbios. Acreditam que Deus está em todas as partes, mas por experiência própria sabem que só atende nos grandes centros urbanos.

As cidades prometem trabalho, prosperidade, um futuro para os filhos. Nos campos, espera-se, vê-se a vida passar, e morre-se bocejando; nas cidades, a vida acontece e chama. Amontoados em cortiços, a primeira coisa que os recém-chegados descobrem é que o trabalho falta e os braços sobram, que nada é de graça e que os artigos de luxo mais caros são o ar e o silêncio.

No dealbar do século XIV, o padre Giordano da Rivalto pronunciou, em Florença, um elogio das cidades. Disse que as cidades cresciam «porque as pessoas sentem gosto em juntar-se». Juntar-se, encontrar-se. Mas, quem se encontra com quem? A esperança encontra-se com a realidade? O desejo, encontra-se com o mundo? E as pessoas, encontram-se com as pessoas? Se as relações humanas foram reduzidas a relações entre coisas, quantas pessoas se encontram com as coisas?

O mundo inteiro tende a transformar-se num grande ecrã de televisão, na qual as coisas se olham mas não se tocam. As mercadorias em oferta invadem e privatizam os espaços públicos. Os terminais de autocarros e as estações de comboios, que até pouco tempo atrás eram espaços de encontro entre pessoas, estão a transformar-se em espaços de divulgação comercial. O shopping center, o centro comercial, montra de todas as montras, impõe a sua presença esmagadora. As multidões acorrem, em peregrinação, a esse templo maior das missas do consumo. A maioria dos devotos contempla, em êxtase, as coisas que seus bolsos não podem pagar, enquanto a minoria compradora é submetida ao bombardeamento da oferta incessante e extenuante. A multidão, que sobe e desce pelas escadas rolantes, viaja pelo mundo: os manequins vestem como em Milão ou Paris e as máquinas soam como em Chicago; e para ver e ouvir não é preciso pagar passagem. Os turistas vindos das cidades do interior, ou das cidades que ainda não mereceram estas benesses da felicidade moderna, posam para a foto, aos pés das marcas internacionais mais famosas, tal e como antes posavam aos pés da estátua do prócer na praça.
Beatriz Solano observou que os habitantes dos bairros suburbanos vão ao shopping center, como antigamente iam até o centro. O tradicional passeio do fim-de-semana até o centro da cidade tende a ser substituído pela excursão até esses centros urbanos. De banho tomado, arranjados e penteados, vestidos com as suas melhores galas, os visitantes vêm para uma festa para a qual não foram convidados, mas podem olhar tudo. Famílias inteiras empreendem a viagem na cápsula espacial que percorre o universo do consumo, onde a estética do mercado desenhou uma paisagem alucinante de modelos, marcas e etiquetas. A cultura do consumo, cultura do efêmero, condena tudo à descartabilidade mediática. Tudo muda ao ritmo vertiginoso da moda, colocada ao serviço da necessidade de vender. As coisas envelhecem num piscar de olhos, para serem substituídas por outras coisas de vida fugaz. Hoje, quando só permanece a insegurança, as mercadorias, fabricadas para não durar, são tão voláteis como o capital que as financia e o trabalho que as gera. O dinheiro voa à velocidade da luz: ontem estava lá, hoje está aqui, amanhã quem sabe onde, e todo trabalhador é um desempregado em potencial.

Paradoxalmente, os shoppings centers, reinos da fugacidade, oferecem a mais bem-sucedida ilusão de segurança. Eles resistem fora do tempo, sem idade e sem raiz, sem noite e sem dia e sem memória, e existem fora do espaço, além das turbulências da perigosa realidade do mundo.

Os donos do mundo usam o mundo como se fosse descartável: uma mercadoria de vida efémera, que se esgota assim como se esgotam, pouco depois de nascer, as imagens disparadas pela metralhadora da televisão e as modas e os ídolos que a publicidade lança, sem pausa, no mercado. Mas, para que mundo nos vamos mudar? Somos todos obrigados a acreditar na historieta de que Deus vendeu o planeta a um pequeno número de empresas porque, estando de mau humor, decidiu privatizar o universo? A sociedade de consumo é uma armadilha para apanhar tontos. Aqueles que comandam o jogo fazem de conta que não sabem disso, mas qualquer um que tenha olhos na cara pode ver que a grande maioria das pessoas consome pouco, pouquinho e nada, necessariamente, para garantir a existência da pouca natureza que nos resta. A injustiça social não é um erro por corrigir, nem um defeito por ultrapassar: é uma necessidade essencial. Não existe natureza capaz de alimentar um shopping center do tamanho do planeta.

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