Texto seleccionado, traduzido e revisto por Júlio Marques Mota
Fábrica Foxconnde Longhua,naprovínvia deGuangdong – HonSiuKeung/EPN/NEWSCOM/SIPA
Nas suas fábricas, a empresa chinesa em regime de subcontratação do gigante americano Apple reinventa a escravatura .
A 13 de Dezembro, o canal televisivo França 2 ofereceu-nos uma história edificante. Mostravam-se as desastrosas condições de vida e de trabalho dos trabalhadores na Foxconn, o principal fabricante de material electrónicos de mundo e o maior empregador da China comunista. Foxconns’ deu-se a conhecer publicamente depois de uma onda de suicídios trágicos na Primavera de 2010. Por mimetismo, os jovens trabalhadores migrantes suicidavam-se atirando pelas janelas das instalações de Foxconn..Marianne foi também à Foxconn e, em seguida, descobrimos como é que 350.000 jovens trabalhadores trabalhavam numa austera fábrica de cidade nos subúrbios de Shenzhen, fabricavam, dia e noite, os produtos Sony, Nokia, HP, Nintendo , bem como toda a gama da maçã, da Apple…
Mais de dois anos se passaram, e Foxconnentretanto tem fortemente deslocalizado a sua produção, principalmente para as províncias menos desenvolvidas a oeste da China. Além das redes de protecção contra as tentativas de suicídio, na verdade, nada terá mudado.As mesmas cadências infernais, os mesmos dormitórios sem alma, uma mesma gestão darwinista dos seres humanos. Esta realidade, constatei-a em Shenzhen, Chengdu e Chongqing, para onde a Foxconn mudoua sua produção de impressoras da HP, a partir das vantagens de isenções fiscais que lhe foram concedidas e do mais baixo custo do trabalho.
A novidade éo trabalho forçado. Sempre que a Foxconninaugura um novo local de produção, o governo local apressa-se rapidamente a requisitar as suas forças vivas . Cada município é obrigado a participar com uma cota de trabalhadores, sob pena de lhe serem retiradas as ajudas públicas. O governo também oferece os seus alunos das escolas de ensino profissionais numa bandeja. Trabalho forçado para crianças de 16 anos, assim atirados para o mundo do trabalho, edisfarçado atrás de convenções de estágios, é claro.
Hoje, a Apple, o cliente principal, faz exactamente como faz a avestruz, mete a cabeça na areia, finge que ignora, que não sabe.Pressionada pelas ONGs, a empresa reconheceu a responsabilidade nestes erros. Sem dúvida, ela terá pensado que nada disto poderia ameaçar os seus enormes lucros. Porque, mesmo na China, a Apple é irresistível. O iPhone 5 já se vendeu 2 milhões de exemplares na primeira semana do seu lançamento. Na área remota de Hulunbuir, no norte da Mongólia, os habitantes da pequena cidade de Hailar ainda não têm McDonald, mas já tem duas falsas AppleStore… Em Jinan, na província de Shandong, a cara de Steve Jobs ilustra os taipais das construções civis, sejam trabalhos públicos, sejam imobiliário . “Quem para aqui vier trabalhar, nestes escritórios, terá o mesmo sucesso que a Apple!” é o que nos promete a publicidade. E suas vendas da sua biografia ultrapassam todos os Harry Potter.
Sobre a Globalização e a China- a opinião de Pascal Lamy.
Hoje, os apelos para a desmundialização e para o proteccionismo sucedem-se na classe política francesa, de Jean-LucMélenchon a Marine LePen e sucedem-se igualmente entre conhecidos economistas como Dominique Plihon, Jean-LucGreau, PhillipeMurer, Jaques Sapir, entre muitos outros, como o temos vindo a sublinhar no nosso blog. De todo este movimento, Pascal Lamy, o actual director-geral da Organização Mundial do Comércio discorda.
De uma entrevista ao jornal Le Monde sublinhemos duas respostas de Pascal Lamy sobre esta problemática.
P. Está surpreso com o retorno deste debate?
R. Vejo-o voltar desde há dois anos. A globalização é uma enorme transformação das economias e das sociedades, de que se tinha subestimado a magnitude e que atinge países que estão há frente do ranking da riqueza à escala mundial. Mas a desmundialiazação é um conceito reaccionário.
P. Porquê?
Porque o fenómeno veio para durar. Os motores da globalização são hoje os porta-contentores, a Internet, e a tecnologia o recipiente e a Internet e a tecnologia não e não farão marcha atrás! Hoje, estão cada vez mais esbatidas as fronteiras entre o comércio interno e internacional. Reduzir as importações qualquer que seja equivale a que este esteja a penalizar as suas exportações. Muitos em França comportam-se como se a economia nacional esteja a ser subjugada pelos países emergentes e especialmente pela China, devido ao dumping ambiental e social. Dumping ambiental? As exportações de produtos industriais que exporta a Europa são mais ricos em carbono do que as suas importações de países em desenvolvimento. Competitividade salarial desleal? Não é óbvio, mesmo que a China empregue para o mesmo custo 8 trabalhadores enquanto na Europa se emprega apenas um trabalhador. Mas os salários chineses sobem são 15% a 20% por ano, o que muda radicalmente a situação. “
Conclusão:
A esta realidade contraponha-se a visão de Pascal Lamy, o secretário-geral da OMC e portanto um dos mais altos responsáveis pela desregulação do comércio mundial.
Compreende-se portanto a insistência que nos posicionemos sucessivamente contra a desregulação do comércio mundial, contra a política comercial europeia que se define por ser a política comercial que os outros impõem, do mesmo modo que a política cambial da União Europeia é igualmente a política cambial que os outros estabelecem. Assim, não, não haverá empregos para quase ninguém nesta Europa de milhões de desempregados em que se estabelece explicita ou implicitamente que quem governa são os mercados e que estes governam tanto melhor quanto menor for a intervenção das organizações que lhes são externas, entre as quais, refira-se, estão os Estados soberanos.

