PERO DA PONTE
(séc. XIII)
Se eu pudesse desamar
a quem me sempre desamou,
e pudess’algum mal buscar
a quem me sempre mal buscou!
Assi me vingaria eu,
se eu pudesse coita dar
a quem me sempre coita deu.
Mais sol nom posso eu enganar
meu coraçom que m’enganou,
por quanto me fez desejar
a quem me nunca desejou.
E por esto nom dormio eu,
porque nom posso eu coita dar
a quem me sempre coita deu.
Mais rogo a Deus que desampar
a quem m’assi desamparou,
vel que pudess’eu destorvar
a quem me sempre destorvou.
E logo dormiria eu,
se eu pudesse coita dar
a quem me sempre coita deu.
Vel que ousass’eu preguntar
a quem me nunca preguntou
por que me fez em si cuidar,
pois ela nunca em mim cuidou.
E por esto lazeiro eu,
porque nom poss’eu coita dar
a quem me sempre coita deu.
Escudeiro e segrel, ou seja, trovador profissional, provavelmente galego e activo por volta de 1235-1260. Poeta de grande talento, hábil, inovador e vivificador da cantiga de amor e da de amigo, através da fusão de formas tópicas dos dois géneros. Esta cantiga é um bom exemplo da “coita de amor” ou sofrimento por amor, tema, como se sabe, largamente tratado na lírica galego-portuguesa.
Glossário: “sol”: sequer; “dormio”: durmo; “vel”: ou; “destorvar”: angustiar; “lazeiro”: sofro.

