POESIA AO AMANHECER – 120 – por Manuel Simões

poesiaamanhecer

PERO DA PONTE

(séc. XIII)

Se eu pudesse desamar

a quem me sempre desamou,

e pudess’algum mal buscar

a quem me sempre mal buscou!

Assi me vingaria eu,

                se eu pudesse coita dar

                a quem me sempre coita deu.

Mais sol nom posso eu enganar

meu coraçom que m’enganou,

por quanto me fez desejar

a quem me nunca desejou.

E por esto nom dormio eu,

                porque nom posso eu coita dar

                a quem me sempre coita deu.

Mais rogo a Deus que desampar

a quem m’assi desamparou,

vel que pudess’eu destorvar

a quem me sempre destorvou.

E logo dormiria eu,

            se eu pudesse coita dar

             a quem me sempre coita deu.

Vel que ousass’eu preguntar

a quem me nunca preguntou

por que me fez em si cuidar,

pois ela nunca em mim cuidou.

E por esto lazeiro eu,

                porque nom poss’eu coita dar

               a quem me sempre coita deu.

Escudeiro e segrel, ou seja, trovador profissional, provavelmente galego e activo por volta de 1235-1260. Poeta de grande talento, hábil, inovador e vivificador da cantiga de amor e da de amigo, através da fusão de formas tópicas dos dois géneros. Esta cantiga é um bom exemplo da “coita de amor” ou sofrimento por amor, tema, como se sabe, largamente tratado na lírica galego-portuguesa.

Glossário: “sol”: sequer; “dormio”: durmo; “vel”: ou; “destorvar”: angustiar; “lazeiro”: sofro.

Leave a Reply