POESIA AO AMANHECER – 125 – por Manuel Simões

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D.PEDRO DE PORTUGAL, CONDE DE BARCELOS

( cerca de 1285 – 1354)

Um cavaleyro avya

ua tenda muy fremosa

que, cada que n’ela s’ia

assaz lh’era saborosa.

E um dia, pela sesta,

u estava bem armada,

de cada par’espeçada

foy toda pela meestra.

Na tenda nom ficou pano

nem cordas nem guarnimento

que toda non foss’a dano

pelo apoderamento

da meestra que, tirando

foy tanto pelo esteo,

que por esto, com’eu creo,

se foy toda espeçando.

A corda foy en pedaços

e o mays do al perdudo,

mays ficarom-lhi dous maços

par do esteo merjudo;

e a meestra metuda

na grand’estaca jazendo,

e foy-s’a tenda perdendo

assi como é perduda.

Per mingua de bom meestre

pereceo tod’a tenda

que nunca se dela preste

pera dom nen pera venda;

ca leyxou, com mal recado,

a meestra tirar tanto

da tenda que, ja enquanto

viva, será posfaçado.

Filho natural do rei D. Dinis, trovador, historiador, mecena de poetas, organizador e compilador do cancioneiro (perdido) – legado por ele, no seu testamento, em 1350, ao rei Afonso XI de Castela – e que deu origem a um ramo da tradição manuscrita da lírica galego-portuguesa. Nesta cantiga de escárnio, numa perspectiva erótico-satírica, o poeta ironiza a propósito de um cavaleiro que tinha uma tenda e que permitiu a uma cortesã que lh’a arruinasse.

Não obstante a ambiguidade pretendida pelo poeta,” tenda” parece ter aqui o valor de órgão sexual masculino, dada até a sua decomposição em “esteo”, “corda”, “dous maços”, “estaca”.

Glossário: “espeçada”: despedaçada

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