D.PEDRO DE PORTUGAL, CONDE DE BARCELOS
( cerca de 1285 – 1354)
Um cavaleyro avya
ua tenda muy fremosa
que, cada que n’ela s’ia
assaz lh’era saborosa.
E um dia, pela sesta,
u estava bem armada,
de cada par’espeçada
foy toda pela meestra.
Na tenda nom ficou pano
nem cordas nem guarnimento
que toda non foss’a dano
pelo apoderamento
da meestra que, tirando
foy tanto pelo esteo,
que por esto, com’eu creo,
se foy toda espeçando.
A corda foy en pedaços
e o mays do al perdudo,
mays ficarom-lhi dous maços
par do esteo merjudo;
e a meestra metuda
na grand’estaca jazendo,
e foy-s’a tenda perdendo
assi como é perduda.
Per mingua de bom meestre
pereceo tod’a tenda
que nunca se dela preste
pera dom nen pera venda;
ca leyxou, com mal recado,
a meestra tirar tanto
da tenda que, ja enquanto
viva, será posfaçado.
Filho natural do rei D. Dinis, trovador, historiador, mecena de poetas, organizador e compilador do cancioneiro (perdido) – legado por ele, no seu testamento, em 1350, ao rei Afonso XI de Castela – e que deu origem a um ramo da tradição manuscrita da lírica galego-portuguesa. Nesta cantiga de escárnio, numa perspectiva erótico-satírica, o poeta ironiza a propósito de um cavaleiro que tinha uma tenda e que permitiu a uma cortesã que lh’a arruinasse.
Não obstante a ambiguidade pretendida pelo poeta,” tenda” parece ter aqui o valor de órgão sexual masculino, dada até a sua decomposição em “esteo”, “corda”, “dous maços”, “estaca”.
Glossário: “espeçada”: despedaçada

