Depois da antologia da lírica medieval galego-portuguesa, apresentamos uma breve amostragem da chamada poesia palaciana, mais concretamente da que foi compilada por Garcia de Resende no “Cancioneiro Geral” de 1516. Aqui reuniu o compilador a poesia produzida na corte portuguesa desde o reinado de D. Afonso V até à data da edição.
ÁLVARO DE BRITO
Pregunta
Dama que fez gasalhado
e favores
a galante por amores
que é com outra casado,
pregunto se faz pecado
ou virtude:
todo cortesão m’ajude,
sem falar afeiçoado.
COUDEL-MOR (FERNÃO DA SILVEIRA)
Resposta
Quem mais perde por servir
mais obriga sua dama
pelo qual rezão a chama
a seu mal não consentir.
Mas antes todo favor
lhe deve ser outorgado,
que dito temos d’autor:
«que Dios al buen amador»
nunca demanda pecado.
Seguindo o esquema pergunta/resposta com que se abre o “Cancioneiro” – extenso poema que ficou conhecido como o “Cuydar & sospirar” – , uma espécie de corte de amor organizada à semelhança de um tribunal, aqui se defende a qualidade do bom amante
Glossário: “fez gasalhado”: acolheu; “falar afeiçoado”: sem afectação; “demanda”: imputa.

