EDITORIAL: UM MILHÃO DE ASSINATURAS PARA DEMITIR RAJOY

Diário de Bordo - II

 

Na plataforma change.org corre um abaixo-assinado que visa a recolha de um milhão de assinaturas a pedir a demissão de Mariano Rajoy e de todo o Governo espanhol. Este e outros líderes do PP terão dividido entre si donativos ilegais de empresários, destinados ao partido. Alguns desses empresários estariam envolvidos em casos de corrupção.  Entretanto, o antigo primeiro-ministro Aznar estará a preparar um processo contra El País por se se sentir atingido pela notícia saída no jornal que despoletou a vaga de indignação que estará na origem do abaixo-assinado, que já terá recolhido quinhentas mil assinaturas. Veja-se o disse ontem o Público em http://www.publico.pt/mundo/noticia/mais-de-340-mil-assinaturas-online-em-24-horas-para-pedir-demissao-de-rajoy-1582951. Entre os doadores até figura o nome de um antigo Presidente do Tribunal de Contas.

Poder-se-á comentar: mais um abaixo-assinado. Contra Mariano Rajoy e o seu governo, só na plataforma change.org existem dezenas de outros abaixo-assinados. Contudo, para além da espantosa gravidade do assunto, a grande adesão à participação dá uma ideia do choque que causou. Poder-se-á dizer ainda: casos destes há por todo o mundo. É verdade: nós cá em Portugal, bem o sabemos. Basta ler Os Donos de Portugal, ou ver o filme do Jorge Costa, para se ver até que ponto chega a promiscuidade do dinheiro com a política.

 Mas é sempre importante chamar a atenção para este facto. A grande crise em que estamos mergulhados desde 2008 não teria acontecido se não fosse essa promiscuidade. Mesmo quando os tais donativos não aparecem, há outras maneiras de exercer influências. Uma análise do caso Berlusconi dá muitos exemplos, só para referir um caso.

A crise financeira de 2008 (chamemos-lhe assim) levou a que todos os governos dos chamados países ocidentais adoptassem políticas no sentido de reduzir os custos do trabalho e de corte nas despesas do estado. Não se importarem com o empobrecimento resultante, procurando fortalecer a posição da banca, da banca privada, note-se. A maioria das pessoas (os 99%!) foi seriamente atingida, incluindo os pequenos e médios empresários, a maioria dos quais foi à falência, ou ficou lá perto. O grande capital fortaleceu imenso a sua posição. A posição dos seus detentores, claro. E nós aguentamos, aguentamos. Pois se os sem-abrigo aguentam, aguentam. É o que esperam de nós: salários chineses (será ainda actual a ideia subjacente a esta expressão?) e viver como os sem-abrigo.

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