Um amigo, que muitos dos colaboradores deste blogue conheceram e do qual puderam apreciar a forma alegre, descontraída e sábia de estar na vida, uma vida que amava e de que preferia sempre salientar os aspectos positivos, conseguindo muitas vezes contagiar com o seu optimismo os que com ele formaram equipa, o nosso querido amigo fez uma viagem inesperada. Chamamos-lhe “viagem” porque pessoas como ele não morrem enquanto os amigos o recordarem. E nós recordamos o Carlos Fonseca, as suas gargalhadas, o seu apego às motas e aos cavalos. Sempre voltado para o futuro, para o que a estrada lhe iria trazer.
À Maria Eduarda, mulher e companheira de uma vida junto do nosso amigo Carlos Fonseca, dedicamos a canção “Cuando un Amigo si va” e desejamos que a força e a alegria dele seja o seu conforto. Como, de certo modo, é o nosso.

O Carlos Fonseca era aquilo a que se costuma chamar «uma força da natureza». Nós, os que trabalhámos com ele – o Luís Rocha, o Andrade, eu – em muitas situações de dificuldade, cediamos ao pessimismo – mas logo o Carlos desdramatizava, salientava todos os aspectos positivos que situações globalmente negativas apresentavam e foi, muitas vezes, com o seu optimismo que demos a volta por cima. OUtro elemento da nossa «imparável» equipa, o nosso Administrador-Delegado, João José Deiros, homem de uma grande prudência, de um grande saber empresarial, e que parecia estar nos antípodas do Fonseca, apreciava-o como ele merecia ser apreciado e não se cansava de afimar que o Carlos Fonseca era um elemento imprescindível. Nós, os seus amigos, estamos desolados. Não ia a funerais – e não nos deixou ir ao seu – A Maria Eduarda, sua mulher, tinha instruções para só nos informar dias depois. E assim fez. Há poucas semanas telefonou-me dizendo que tínhamos de combinar um almoço «para quando o tempo melhorasse». E disse coisas sobre a nossa amizade que na altura me pareceram excessivas, mas que agora compreendo – era a despedida. Em dois meses uma doença terrível levou-o. Recordá-lo-emos sempre pujante de alegria, com o seu fato de cabedal e a sua moto, com o seu amor pelos cavalos… Falando com outro amigo e recordando proezas do Carlos, demos connosco a rir. Era assim que ele queria ser recordado, vendendo saúde, transbordante de optimismo e de alegria. Mas, mesmo para honrar a sua memória e para o recordarmos como quis que o recordássemos, não conseguimos afogar a grande tristeza em que a sua partida nos deixou.
Do Carlos Leça da Veiga, recebi esta mensagem<.
Caro Loures,
Diz, à Maria Eduarda, que o Leça da Veiga lamenta, com verdade, o falecimento do Marido e, por isso, com um abraço, envia-lhe os seus sentimentos de muito pesar.
Agradeço-te o favor, CLV
Tive poucos contactos com o Carlos Fonseca, mas das poucas vezes que lidei com ele admirei o seu otimismo e a sua maneira de encarar a vida
Peço ao Carlos que enderece à familia dele os meus sentidos pesames
António Mão de Ferro
Um dia, há cerca de 30 anos, o Carlos Loures telefonou-me dizendo que tinha um amigo a necessitar de que alguém o esclarecesse sobre questões relacionadas com a aquisição de uma habitação. «Lembrei-me de ti, pá!», disse o Carlos, «vamos almoçar ao Frascatti». Aceitei, o restaurante ficava a meio caminho entre os nossos locais de trabalho, mas não deixei de torcer o nariz, pois o Carlos Loures tinha-se esquecido de que eu sou alérgico a todo o tipo de queijo. Mas foi este facto que me levou a conhecer o Carlos Fonseca. Hoje digo, como sempre disse, que valeu o sacrifício.
Para mal dos meus pecados, a mesa que nos calhou era junto à entrada para a zona da cozinha, por onde, portanto, saíam todos os pratos encomendados, na sua maioria a tresandar a queijo, o que me levou a fazer, durante toda a refeição, caretas pouco simpáticas, como mais tarde, rindo, os três recordávamos este dia. O Carlos Fonseca ficou com uma ideia pouco simpática de mim, pensando que eu estava a cumprir um frete, só por mim aceite por causa da amizade que me ligava ao Carlos Loures.
Felizmente, os contactos continuaram e, pouco tempo depois, já nos ríamos do acontecimento, com o Carlos Fonseca rindo com aquela alegria optimista que o seu rosto sempre nos transmitia.
Vivemos algumas aventuras por esse país fora, com a preocupação de promover os livros das Publicações Alfa, procurando, naturalmente, vendê-los. Eu falava do conteúdo dos livros, dado que o Carlos Fonseca dizia, e era sincero, que eu fazia esse trabalho melhor do que ele; o Carlos Fonseca fazia o fecho, ou seja, entrava no final do meu discursar sobre a obra e fazia a venda propriamente dita com um saber que lhe era inato, com uma qualidade de comercial como nunca vi em qualquer outra pessoa.
A amizade cimentou-se, vendemos milhares de exemplares, nomeadamente da História de Portugal, e, há que dizê-lo, não ganhou só a Alfa, nós também ganhámos bom dinheiro. Mas se ganhámos bom dinheiro, também o soubemos gastar bem, podendo satisfazer não só algumas necessidades primárias e que um melhor conforto nos proporcionaram, mas também sobrou algum desse dinheiro para satisfazer outros prazeres da vida, juntamente com a Eduarda, sua mulher, a Célia, minha mulher, o Carlos Loures e a sua Helena, prazeres esses não exorbitantes mas proporcionadores de um são convívio, onde muitas vezes acontecia uma ida ao teatro e outras vezes uma boa mariscada (falar disto em tempo de crise como a que vivemos pode não parecer bem, mas esses momentos foram possíveis graças ao nosso trabalho, muitas vezes ao fim-de-semana, não havendo qualquer sentimento de culpa). A estes quatro, logo se juntaram mais dois, a Lídia e o Luís Rocha e depois outros, embora não tão constantes, como o Manuel Simões, nas suas visitas a Portugal, vindo de Itália, a Maria Ester e o Arsénio Mota quando, vindos do Porto, se deslocavam a Lisboa.
Sempre presente, a alegria contagiante do Carlos Fonseca, o seu optimismo no amanhã que seria bom para todos, conseguindo fazer-nos esquecer, a todos os outros, as preocupações que nos faziam temer, com as nossas reflexões a que o Carlos Fonseca não era muito dado, precisamente o amanhã.
Agora, se há outro mundo, o Carlos Fonseca estará à nossa espera com o mesmo sorriso de sempre e a palavra amiga que, apesar dos nossos pessimismos/realismos, nos fazia também sorrir e encher o peito do mesmo optimismo.
Para a Maria Eduarda mando um grande abraço de pêsames e de amizade. Podes crer que o Carlos deixa um vazio enorme entre nós. Foi um choque saber da morte de alguém que amava tanto a vida como ele, e a enfrentava com tanta galhardia. A última vez que o vi, já lá vai mais de um ano, talvez até dois, achei-o ainda mais novo. Ainda estou petrificado. Um abraço grande para ti, com saudades. João.