MUNDO CÃO – ANTES A GUERRA QUE MAUS NEGÓCIOS – por José Goulão

O presidente de França, François Hollande, explicou com a solenidade própria dos momentos históricos dramáticos que o envio de tropas para o Mal era uma espécie de missão de sacrifício do seu país para ajudar a libertar a humanidade da maldição do terrorismo radical islâmico. Só não entoou “A Marselhesa” no final, a exemplo de alguns antecessores, talvez por desafinar ou por se ter esgotado o tempo de antena.

Não existem dúvidas de que o radicalismo islâmico está presente, e bem presente, no Norte do Mali, o que não acontece apenas agora. O que alarmou Paris foi a possibilidade de, perante a incapacidade das autoridades de Bamako para governarem o país, os radicais islâmicos assumirem o poder em todo o Mali. Uma cómoda situação neocolonial ficou assim em risco de se transformar em qualquer coisa mais imprevisível se bem que, como veremos já adiante, as autoridades francesas e os fundamentalistas tenham razões para se conhecerem mutuamente muito bem.

Quem são estes terroristas islâmico contra os quais a França montou a sua mais recente cruzada? O nome que usam na circunstância é AQIM (Al-Qaida no Magrebe Islâmico), mas ali mesmo ao lado, na Líbia, chamam-se Grupo Combatente Islâmico. A fusão operacional destes dois grupos foi anunciada em 2007 e apadrinhada por Abdelhakim Belhaj, governador militar de Tripoli desde o derrube de Khaddafi e de momento, ao que parece, em comissão de serviço algures na fronteira entre a Turquia e a Síria para, em colaboração com a NATO, apoiar o Exército Sírio da Liberdade.

Perguntarão: o Grupo Combatente Islâmico não foi apoiado pela NATO na Líbia, não se diz até que a colaboração entre os seus militantes e a presidência francesa, então de Sarkozy, através dos serviços secretos, foi ao ponto de concretizar a execução de Khadaffi?

É verdade. Acontece até que durante os anos mais recentes a atuação do AQIM no Norte do Mali foi tolerada pelos governos de Bamako, perante a complacência francesa, porque servia para travar o passo aos independentistas do Movimento Nacional de Libertação Azawad, laicos e perseguidos pelos fundamentalistas. A instabilidade política na capital do Mali alterou a relação de forças e encorajou os radicais islâmicos a estender os tentáculos cada vez mais para Sul.

Um dos fundadores do AQIM, Mokhtar Belmokhtar, que esteve recentemente por detrás do sequestro na Argélia que provocou dezenas de mortos, foi um jovem contemporâneo de Bin Laden no Afeganistão na altura em que todos eram treinados e pagos pela CIA e pelos serviços secretos ingleses, sauditas e paquistaneses. Os financiamentos do grupo continuam a chegar principalmente do Qatar e da Arábia Saudita, os maiores aliados da NATO, dos Estados Unidos – e de França – na sua estratégia perante a chamada “Primavera árabe”. Belmokhtar pode até ser um terrorista mas parece ser um homem sincero. Falando de dinheiro e armas confessou que o AQIM é “dos maiores beneficiários das revoluções no mundo árabe”. Sem contar, é claro, com o tráfico de droga, outra das suas boas fontes de receitas.

Perguntarão agora: o que move então Hollande a montar esta cruzada para combater no Mali grupos que estiveram ao lado da França na Líbia, que estão ao lado de França na Síria e o mais que ainda está para vir?

Direitos humanos? Uma incontrolável vocação antiterrorista? Ora, ora…

Pensemos antes em ouro, de que o Mali é o terceiro exportador africano; em urânio, estratégico para a maior potência nuclear na União Europeia e cujas reservas e explorações, a cargo da empresa francesa Areva, unem vastas áreas dos territórios do Mali e do Níger; pensemos ainda em petróleo e gás natural, em que o território maliano parece ser promissor, segundo estudos técnicos; no potencial de diamantes cuja existência está comprovada.

Perguntarão ainda: se existem casos de colaboração entre tais grupos radicais islâmicos e a França para quê combatê-los em vez de fazer acordos com eles?

Porque trocar o certo pelo duvidoso é mau negócio. O Mali é uma pérola do império neocolonial francês. O mais seguro para Paris será restaurar a estabilidade política e militar em Bamako sob o seu controlo porque, quanto mais não seja, os grupos terroristas têm muitos donos, que variam consoantes as circunstâncias e o local, e ter de partilhar o bolo seria igualmente mau negócio.

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