JOÃO MANUEL
Regra sua pera quem quiser viver em paz
Ouve, vê e cala,
e viverás vida folgada.
Tua porta cerrarás,
teu vizinho louvarás,
quanto podes não farás,
quanto sabes não dirás,
quanto vês não julgarás,
quanto ouves não crerás,
se queres viver em paz.
Seis cousas sempre vê,
quando falares te mando:
de quem falas, onde e quê,
e a quem, como e quando.
Nunca fies nem perfies,
nem a outro enjuries,
não estês muito na praça,
nem te rias de quem passa,
seja teu todo o que vestes;
a ribaldos não doestes,
Não cavalgarás em potro,
nem ta mulher gabes a outro;
não cures de ser picão
nem travar contra rezão.
Assi lograrás tas cãs
com tuas queixadas sãs.
Na poesia como jogo, também se pode conjugar, graças a uma discreta ironia, uma dimensão pragmática – sugerida já nos termos da rubrica que introduz o poema – e uma dimensão crítica.
Glossário: “estês”: estejas; “ribaldos”: patifes; “doestes”: ultrajes; “picão”: arrogante;
“travar”: bater-te.

