A TRAIÇÃO DOS PS AO SOCIALISMO DENUNCIADA POR UMA JOVEM

Vídeo do discurso da líder da Juventude Internacional Socialista, em Cascais, onde acusou os socialistas de não ouvirem os jovens e afirmou que não é com reuniões em hotéis de luxo que se resolve a crise, já foi visto na Internet por mais de 100 mil pessoas.

“Surpreende-me muito como pretendemos pôr em marcha a revolução a partir de um hotel de cinco estrelas em Cascais, chegando em carros de luxo. Pergunto-me verdadeiramente se nós podemos dar aos cidadãos uma resposta quando vós, líderes políticos, lhes dizeis que os entendeis, que sofreis porque somos socialistas. Sentimos verdadeiramente essa dor aqui dentro? Podemos, na verdade, entender o que estamos pedindo ao mundo a partir de um hotel de cinco estrelas?”

Beatriz Talegón, líder da Juventude Internacional Socialista, envergonhou os líderes socialistas mundiais com um discurso que incendiou as redes sociais. . Na sua intervenção, Talegón referiu-se ao que considera ser a crescente distância entre os dirigentes e a geração mais jovem, criticando a contradição entre o luxo da própria reunião e o elevado desemprego ou a contestação nas ruas. A jovem exigiu que as contas da Internacional Socialista não sejam um “mistério como as pirâmides do Egipto”, mas que sejam transparentes, recusou que os militantes jovens só sirvam para “aplaudir” e para colar cartazes acusou os dirigentes de serem em parte “os responsáveis” pelos jovens não terem futuro. “O que nos deveria doer é que eles (jovens) estão a pedir democracia e nós não estamos aí”, afirmou a jovem, de 29 anos, referindo-se à falta de apoio das lideranças para os jovens que protestam nas ruas. “Não nos querem escutar”, disse, considerando que “a esquerda está agora ao serviço das elites, dança com o capitalismo e é burocrática”, acrescentando que “tem perdido completamente o norte, a ideologia e a conexão com as bases, o que é algo a que a esquerda não se pode permitir.”

Tudo coisas que temos dito e redito – a cambada neo-liberal está espalhada pelos partidos de direita, mas também pelos partidos ditos socialistas. E quem lhes abriu a porta? Mário Soares, Felipe González…

Escuta Beatriz – se és socialista o que fazes no PSOE? Tu é que estás equivocada, Beatriz.

6 Comments

  1. Talvez ela não esteja enganada… Está numa organização que se afirma socialista e persiste – decerto com o apoio daquela pequena parte dos “jotinhas” que não perseguem uma “carreira” – na defesa dos seus ideais. Pode ser devorada pelos tubarões, mas também pode ser uma esperança, pois não será por acaso (mas, sim, porque há uma maioria que a apoia) que foi eleita para o importante cargo que ocupa nas juventudes da Internacional Socialista e, no desempenho das tarefas que daí decorrem, se recusa a frequentar hotéis de cinco estrelas, trocando-os por pensões baratas. Precisamente por a sua ambição ser o serviço dos outros e não “servir-se dos outros” (coisa em que os membros da espécie “jotinium vulgaris Linaeus” esgota toda a sua energia), percebe-se que tem uma craveira intelectual e uma experiência de vida muito superiores às dessa categoria zoológica. Parece ser daquelas pessoas que não se vendem e que saberá avaliar se o seu empenho (e dos “companheiros” que nele a acompanham) contribuirá para a radical transformação que preconiza – e que sabe ser indispensável – ou se deverá prosseguir a sua acção noutras instâncias. Não sei se “Deus escreve direito por linhas tortas”, porque não conheço tal sujeito nem obra que, validamente, se lhe possa atribuir; mas sei que a História nos mostra que os caminhos que têm conduzido aos mais importantes (ainda que sempre periclitantes) avanços civlizacionais são assaz retorcidos…

    1. Meu Caro Paulo, gostava de poder acreditar na genuinidade do discurso desta jovem – que não é uma adolescente, mas uma mulher à beira dos 30 anos. A carta aberta que um ex-companheiro lhe escreve e que publicaremos ao princípio da tarde, dá-nos uma perspecctiva diferente. Não temos, nem que duvidar da sinceridade de Beatriz, nem que acreditar no que Julián Jiménez diz – as coisas raramente acontecem a cem por cento. Numa apreciação cautelosa, nem negativa, nem embandeirante-em-arco, diria que, seja o que for o que faz correr Beatrz, a sua intervenção é positiva. Mas não descartaria a hipótese de ter escolhido esta via para chegar ao topo da hieraquia e, nessa altura, assumir o sentido da responsabilidade e pragmatizar o discurso. Já vi muita maneira de «matar moscas». Mas, ó Paulo, para se estar no PSOE (ou no PS), acreditando que é um partido revolucionário, só sendo míope como Mr. Magoo, que se senta em frente da máquina de lavar roupa pensando que está a ver televisão e que no final, quando o tambor pára de girar, comenta – «Estes programas são sempre a mesma coisa…».

  2. Continuo a ser idealista e a perseguir utopias (a alternativa é, para ser suave, incómoda e boçal). Mas não sou ingénuo. Suspeito que nunca fui: defeito de quem terá já nascido morbidamente racional. E tenho o péssimo hábito de pensar pela minha cabeça e de, modestamente, tentar ver um pouco para além da superfície “jornalística” das coisas e do cinzento moribundo em que tantos “pensadores” tentam embrulhar-nos as infinitas cores da vida, para no-la servirem já putrificada. Quanto aos factos, vejo e analiso o que vejo, hoje, não me tomo por tonta sibila desfiando augúrios, dos quais jamais estaria seguro, pois que a verdade verdadeira e única teima em não se deixar seduzir por mim, é uma vadia que me foge (parece que a outros convence que descansará para sempre em seus braços). Não podendo, pois, possuir, inteira e exclusiva, tão esquiva entidade, contento-me com a subjectividade da minha análise em cada momento e do pouco que procuro enxergar, adiante do nariz, no nevoeiro do futuro. Reparo em coisas: por exemplo, na peculiaridade das acusações – póstumas à fatídica sessão em que a jovem levantou a voz em palavras duras de ouvir pelas tão solenes criaturas que a tiveram de escutar, já que, no “momentum”, lhes faleceu… aaaaaa… digamos… “inspiração”?… – de dois “secretários” (gerais?… de partidos da IS?…) de que a rapariga “ganhava demais” para ter a ousadia de vir dizer tais cousas; ou na firmeza com que ela, num programa televisivo, respondeu a reparos semelhantes, com uma magnífica ferocidade, descrevendo – sem agitar de plumagens, mas com a necessária assertividade – um currículo notável e um percurso intelectual e de intervenção política e social invejável, calando o parolo que a interpelava. Para já, sei que ela tem inegáveis capacidades e que já houve quem tentasse arregimenta-las para outros serviços, mais rentáveis, o que recusou. Também sei que ninguém precisa de ser miserável (eu, felizmente, pelo menos por enquanto, não o sou, o que me permite, entre outras coisas, viver dignamente, usufruir de alguns bens, sobretudo culturais – os que mais me interessam – e ajudar algumas vítimas mais desvalidas dos lacaios da plutocracia que nos governam) para estar “autorizado” a denunciar a miséria, a torpeza, a injustiça. E sei, ainda, que não tenho a mínima vocação, nem apetência, para especular em torno de vagos “ses”: já, prudente mas injustamente, desconfiei que chegasse, quando a tal era forçado por estritas regras de segurança. Não posso adivinhar o futuro da jovem e dos outros jovens que com ela comungam nos mesmos ideais de uma social-democracia a sério (embora tal não coincida com a minha ideologia) – tomáramos nós que os actuais Partidos Socialistas os seguissem (e a rapariga condenou claramente a famosa “terceira via” e apelou a um “retorno às origens” que, pelos vistos, re-conhece)… -, mas tenho a minha opinião sobre a esquerda e o seu futuro, tema que tem sido objecto de alguma reflexão, da minha parte (sem aspirações a transformar-me em doutrinador, mas com alguma irritação com tanto disparate que, generalizadamente, vejo cometer). Sem me alongar, direi apenas que, em minha modestíssima opinião, quem pensar que a esquerda se resume a quem pensa exactamente da mesma maneira, leu os mesmos livros e palmilhou os mesmos caminhos, sabe pouco da Humanidade; e se espera, a partir dessa estreita trincheira, alcançar a transformação do Mundo num sítio mais salutar, bem pode esperar (confortavelmente) sentado, ou ir plantar caracóis na Patagónia, que é uma actividade à qual profetizo (aí sim) um radioso futuro.

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