POESIA AO AMANHECER – 139 – por Manuel Simões

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DIOGO DE MELO (fragmento)

De Diogo de Melo vindo d’Azamor, achando sua dama casada.

Bem te conheço ventura

que me quiseste mostrar

o prazer quam pouco dura

quando o queres desviar.

E pois isto hás-de ter

não te quero agradecer

algum bem se mo fizeste,

pois havias de fazer

no fim tudo o que quiseste.

Tu quebras as esperanças

e desfazes fundamento

toda és feita em mudanças

sem deizar contentamento.

Mas quem ventura conhece

e seus males lho oferece

e em seu poder se vê

isto e muito mais merece

quem por ventura se crê.

(…)

“Cabo”

Sempre lhe veja prazer

como a hora que casou

e veja nunca lhe ver

mais que quanto me deixou.

Pois tam triste me deixaste

com a vida que tomaste

enquanto vida tiveres

rogo a Deus pois que casaste

que chorando desesperes.

A aventura em África foi controversa, como se vê. Aqui o sujeito queixa-se da sorte e amaldiçoa a amada porque se casou na sua ausência. É o mesmo tópico que vamos encontrar no “Auto da Índia”, de Gil Vicente (aliás, também ele poeta do “Cancioneiro Geral”), embora o texto vicentino desenvolva a traição da mulher na ausência do marido.

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