Quando pensamos em bibliotecas, imediatamente nos ocorre a trágica destruição da mítica Biblioteca de Alexandria e, em épocas posteriores, as fogueiras da Inquisição ou dos nazis até à mais recente destruição da Biblioteca de Sarayevo, perdas irreparáveis para a humanidade. Mas também nos acodem pensamentos mais eufóricos, visualizando esses lugares mágicos, bibliotecas para as quais nos remete às vezes apenas um livro, como é o caso de “Gargantua et Pantagruel” com o qual viaja até Paris o último dos Buendía em “Cien años de soledad”.
Tudo isto nos parece maravilhoso, justificando o facto de considerarmos a Biblioteca como um mundo de grande atracção. Jorge Luis Borges deixou-nos páginas extraordinárias sobre o tema, em “La Biblioteca de Babel” e noutras passagens da sua obra, em prosa ou poesia. Em “El guardián de los libros” (“Elogio de la sombra”, 1969), um guarda que não sabe ler, consola-se pensando que o imaginado e o passado são a mesma coisa. Nas altas prateleiras estão «próximos e longínquos ao mesmo tempo,/ secretos e visíveis como os astros», os livros e as maravilhas que encerram:
Aí estão os jardins, os templos e a justificação dos templos,
a recta música e as rectas palavras,
os sessenta e quatro hexagramas,
os ritos que são a única sabedoria
que outorga o Firmamento aos homens,
o decoro daquele imperador
cuja serenidade se reflectiu pelo mundo, seu espelho,
de modo que os campos davam frutos
e as torrentes respeitavam as margens,
o unicórnio ferido que regressa para assinalar o fim,
as secretas leis eternas,
o concerto do orbe;
essas coisas ou a sua memória estão nos livros
que conservo na torre.
(a tradução é minha)
Dimensão de suprema sabedoria, dimensão do mistério. Quantas vezes os livros nos encantam sem que os tenhamos lido, com a perspectiva de uma próxima leitura, ou com a recordação de leituras anteriores como são as que contribuiram decisivamente para a nossa formação. Fonte do conhecimento, o livro é também revelação e espelho do leitor. Por vezes as Bibliotecas abrem o seu mistério, revelam tesouros escondidos, que não consistem unicamente nos livros mas também no que os livros, por sua vez, encerram: dedicatórias, comentários de leitores, páginas ou papéis esquecidos, sinais que indicam leituras repetidas. E as dedicatórias têm frequentemente um grande significado, como demonstrou um estudo aqui apresentado pelo argonauta Sílvio Castro. Na sua retórica e na sua linguagem estereotipada, documentam muitas vezes uma história, põem em relação os dois sujeitos (autor e leitor), às vezes efémera quando encontramos nas bancas livros que trazem a marca de quem os possuiu, sinal de que foi mais uma biblioteca que se desmoronou.
Tem-se posto a questão sobre a continuidade do livro em papel, como nós o conhecemos e que continuamos a privilegiar. Por mim não o dispenso, de tal modo me sinto incapaz da leitura atenta de um texto (que não seja breve) transmitido pela net. Ando há meses para acabar de ler o romance de uma amiga, transmitido por esta via, e sei que só conseguirei lê-lo integralmente quando me decidir a imprimi-lo. De resto, creio que este modo de transmissão está a determinar uma leitura transversal, apressada, sem deixar tempo para “prender” o fruidor do texto e proporcionar-lhe a devida reflexão.