POESIA AO AMANHECER – 141 – por Manuel Simões

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                                                                                                GIL VICENTE

      (cerca de 1465 – cerca de 1536)

AUTO DA ÍNDIA (fragmento)

Depois da representação da viagem do “Marido” à Índia e das aventuras galantes da “Ama”, chega a notícia da chegada da “Garça” ao Restelo e, com ela, do regresso do “Marido”:

(…)

MARIDO  Oulá.

AMA     Ali má hora este é.

Quem é?

MARIDO Homem de pé.

AMA   Gracioso se quer fazer.

Subi, subi pera cima.

MOÇA  É noss’amo, como rima!

AMA    Teu amo? Jesu, Jesu,

alvíssaras pedirás tu.

MARIDO    Abraçai-me minha prima.

AMA   Jesu, quão negro e tostado!

Não vos quero, não vos quero.

MARIDO    E eu a vós si, porque espero

serdes mulher de recado.

AMA  Moça, tu que estás olhando,

vai muito asinha saltando,

faze fogo, vai por vinho

e a metade dum cabritinho,

enquanto estamos falando.

Ora como vos foi lá?

MARIDO     Muita fortuna passei.

AMA     E eu, oh quanto chorei,

quando a armada foi de cá.

E quando vi desferir

que começastes de partir,

Jesu, eu fiquei finada,

três dias não comi nada,

a alma se me queria sair.

(…)

O texto integral é constituído por 58 estrofes, quase todas de nove versos, das quais se transcrevem apenas três. A matéria nuclear da farsa é a da intriga à volta do tema do “Marido enganado”, o que constituía uma novidade no teatro do Autor até à representação do Auto,  que terá acontecido em 1509. Surpreendente é também o modo licencioso como falam e agem as figuras da farsa, com situações e comportamentos que recordam, sem dúvda, o clima de alguns contos do “Decameron”, de Boccaccio.

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