EUGÉNIO TAVARES – CONCLUSÃO

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VÁRIAS OPINIÕES SOBRE EUGÉNIO TAVARES.

Muitos críticos vêm Eugénio Tavares como um mero compositor de mornas. Na realidade, a sua obra literária é reduzida e as suas mornas tiveram grande êxito e, por certo, qualidade musical, pois levaram Fernando Lopes Graça a procurar fixar o fio melódico das composições. Não se pode nem deve esquecer, no entanto, a sua intensa actividade como jornalista e como político, lutando em prol da justiça, do fim das desigualdades sociais no arquipélago, pelo apagamento das discriminações étnicas. Mas, fixando-nos apenas na sua faceta literária, ele é um dos próceres da literatura cabo-verdiana em língua portuguesa e, simultaneamente, pugna pelo reconhecimento do crioulo como válido instrumento de cultura. É verdade que escreveu mornas que ainda hoje são cantadas. No entanto, classificá-lo como «criador de mornas» é redutor e injusto, pois significa esquecer a dimensão intelectual e humana da sua luta pela dignidade do povo de Cabo Verde, pela exaltação da beleza das suas gentes e paisagens… Eugénio Tavares criou o conceito de caboverdianidade e terá sido um dos primeiros escritores a sentir e a conceber o arquipélago como entidade cultural autónoma, embora sempre se tenha considerado como português e patriota. Em carta endereçada da Brava, em Novembro de 1928, a José Osório de Oliveira, poeta e ensaísta português (1900-1964) afirma: «Amo a minha Pátria» (…) «Leia a Carta Caboverdeana para um jornal da América. Ela dirá do meu amor à Pátria. Faça o meu amigo reproduzir esses meus sentimentos, aí, onde parentes de meu pai, verão que o patriotismo de Francisco de Paula Tavares, frutificou em África».[1] Porém, ouçamos o que a seu respeito (e sobre a literatura de Cabo Verde) alguns mestres e estudiosos disseram:

«Em Cabo Verde, após a introdução do prelo em 1842, e a publicação do romance cabo-verdiano de José Evaristo d’Almeida, O Escravo (1856)» (…) «segue-se um longo período (ainda hoje mal conhecido no que respeita ao século XIX), até à publicação do livro de poemas Arquipélago (1935) de Jorge

Barbosa, e da revista Claridade (1936), fundada por Baltasar Lopes, Manuel Lopes e Jorge Barbosa, entre outros, em que se destacam José Lopes, Eugénio Tavares e Pedro Cardoso».[2] «Cabo Verde merece consideração à parte. Apesar de circunstâncias também desfavoráveis, como as de nível de vida e a distância a que o português literário se encontra do crioulo falado, a maior proximidade da cultura metropolitana (e sobretudo da brasileira) e certos fermentos mais antigos da vida literária possibilitaram um surto de escritores em torno das revistas Claridade (…) e Certeza», dizem Óscar Lopes e António José Saraiva numa das primeiras edições da sua História da Literatura Portuguesa, destacando depois nomes como os de Baltasar Lopes, Jorge Barbosa e Eugénio Tavares, que designam por «o poeta do crioulo».[3] Manuel Ferreira, sem dúvida um dos maiores especialistas portugueses em literatura africana, particularmente na de Cabo Verde, considera Eugénia Tavares, sobretudo um poeta e um jornalista «de excelente qualidade», quer exprimindo-se em português, quer em crioulo. Quanto à sua ficção, aliás escassa, classifica-a de «inferior qualidade artística».[4] O Tenente-Coronel Joaquim Duarte Silva, um dos mais antigos estudiosos da sua obra, é da opinião que o primeiro texto escrito em crioulo é da autoria de Eugénio Tavares. Refere-se a uma «transposição» para crioulo do famoso texto de Camões, Endechas a Bárbara Escrava (Aquela cativa/Que me tem cativo…), feita por Eugénio. Diz a versão crioula Bárbara, bonita escraba… João Augusto Martins em Madeira, Cabo Verde e Guiné, Carlos Parreira[5] e outros autores, consideram-no o maior poeta lírico de Cabo Verde.

[1] - FERREIRA, Manuel, Cartas Inéditas de Jorge Barbosa, João Lopes e Eugénio Tavares a José Osório de Oliveira, Colóquio Letras, n.º 110/111, Lisboa, Julho de 1989.

[2] PIRES LARANJEIRA, Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa, Universidade Aberta, Lisboa 1995.

[3] – LOPES, Óscar e SARAIVA, António José, História da Literatura Portuguesa, 3ª ed. Porto Editora, Porto (s/d).

[4]– FERREIRA, Manuel, texto citado.

[5]- PARREIRA, Carlos, Eugénio Tavares, Poeta Crioulo, in Mundo Português, nº 78, Lisboa, 1940
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Nota: Agradece-se, na pessoa do seu presidente, Dr. Eugénio Sena, à Fundação Eugénio Tavares a informação que nos proporcionou, quer pela consulta de obras da sua biblioteca quer pela utilização que fizemos da informação escrita contida no seu sítio da Internet (http://www.eugeniotavares.org), sem a qual a feitura desta biografia teria sido bastante mais difícil.

E terminamos com “Nova Sintra”, de Eugénio Tavares, cantada por Gardénia Benrós:

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