POESIA A0 AMANHECER – 142 – por Manuel Simões

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ANTÓNIO RIBEIRO CHIADO

(    ?     – 1591)

AUTO DAS REGATEIRAS (fragmento)

Aqui se apresentam as manobras de uma mãe para casar a filha. A “Velha”, mãe de Beatriz, elenca a Pero, pai do namorado da filha, tudo o que esta levará como dote, incluindo uma idosa serva negra.

(…)

VELHA          Pois mi filha Beatriz Varela,

quem houver de casar com ela

tem muito bom casamento.

Tem um olival em São Bento

e um pinhal n’Arentela

e vinha d’aforamento;

item mais

três colchões, seis cabeçais

e um bom cobertor

e  outro do mesmo teor,

dous pares de castiçais,

seu estanho

e um copo assim tamanho

que tem dois marcos e meio;

cortinas com seu arreio,

três esteiras e um tanho.

E tem mais, por esta guisa,

uns três bacios de pisa

e de fartens duas bacias

e seis boas almofias,

um gral com sua mão lisa,

um enxergão,

quatro lençóis de ruão

e seis d’estopa curados,

oito de linho delgados

e o mais que lhe darão.

E Aquele que vive e reina

sabe como s’isto cava.

E dar-vos-ei uma escrava

que trabalha como zeina:

amassa e esfrega e lava.

(…)

António Ribeiro, de alcunha “Chiado”, foi um frade franciscano de Évora que fugiu à vida conventual e fez em Lisboa vida desregrada, durante a qual compôs e representou os autos “Prática de oito figuras” (1543), “Auto das Regateiras” (1569), “Prática dos compadres” (1572), entre outros. Estas comédias reflectem a vida popular de Lisboa; por exemplo, o “Auto das Regateiras” tem como desfecho uma boda de casamento entre gente típica de Alfama.

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