Cave canem
São quatro horas quando entro em Grou. Passo junto ao portão do outro homem, também surdo, também idoso, que em 2011 também me encheu as garrafas de água, com o qual tinha conversado um pouco; a casa parece fechada.
Mais adiante há uma paragem de camioneta, avanço com a intenção de me sentar, comer e descansar – quando com dentes e raiva surgem dois cães. Sou obrigada a manobrar o bordão. Os animais recuam com prudência mas voltam a lançar-se na minha direção. Isto prolonga-se enquanto, com a vara na mão, engulo flocos de aveia num stress imenso. Convém eu desandar desta terra para fora… Saio portanto da paragem onde, mesmo assim, me sentia protegida, logo os cães adotam a estratégia dos outros, à entrada de Vila Nova da Barquinha: um por detrás e o outro por diante. Giro para não ser mordida, tentando contudo avançar, quando surge o terceiro cão. Começo aos berros.
Ao fim de um tempo infinito aparece uma mulher. Muito sorridente e descontraída, acha cómica a situação: outra estrangeira com os cães.
– Não tenha medo, o meu não morde…
A mulher constitui para mim, neste combate, um quarto elemento de dispersão.
– Tem ar disso!
– Os outros não sei, não são meus, foram abandonados…
– Se um é seu: chame-o!
– Ele nunca mordeu ninguém…
Faço recuar um cão, os outros avançam, volto a girar… Descobrirei em casa que tenho uma meia – de lã grossa – esburacada na barriga da perna.
– Se me morderem, participo à polícia, pode ter a certeza!
Ela vem enfim buscar o bicho e, como por acaso, os dois que, diz dela, não lhe pertencem, também correm para dentro do pátio.
Grou… Quantos peregrinos – portugueses e estrangeiros – terão sido aqui mordidos?
