POESIA AO AMANHECER – 150 – por Manuel Simõess

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ELÓI DE SÁ SOUTO MAIOR

( c. 1570 –   ?  )

“SAI A MANHÃ E LOGO LHE ANOITECE”

Sai a manhã e logo lhe anoitece,

só por cujo respeito amanheceu,

se se mostra sereno e claro o céu,

logo com negras nuvens se escurece.

Florece a rosa e o jasmim florece,

até a graça perder com que naceu,

ganha flores o vale que as perdeu

e as não pode ganhar se as não perdesse.

Tal é o estado alegre da ventura,

que porque se sustenta da esperança,

não pode durar mais que o que ela dura.

Em nada mostra o tempo segurança,

mudar-se é certa lei, e mais segura

ver firmeza do mal, no bem mudança.

(de “Ribeiras do Mondego”)

Com algumas variantes, o soneto glosa ainda o tema da mudança, pelo que se pode considerar o poeta como epígono de Camões e de Sá de Miranda, os modelos de referência. O jogo de antíteses é característica privilegiada da poesia maneirista.

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