Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
11 min de leitura
Texto 18. Dois textos sobre a guerra contra a civilização (Jacobin e Phenomenal World)
1. Os EUA estão a gastar milhares de milhões para bombardear o Irão (edição de Jacobin)
2. Produzir Drones como quem produz bicicletas (edição de Phenomenal World)
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18.1 – Os EUA estão a gastar milhares de milhões para bombardear o Irão
Publicado por
em 20 de Março de 2026 (original aqui)
O governo Trump gastou cerca de 24 mil milhões de dólares em fundos públicos na sua guerra contra o Irão até agora. Eis em que é que esse dnheiro poderia ter sido usado em alternativa.

Nos primeiros seis dias de guerra contra o Irão, o Pentágono gastou 11,3 mil milhões de dólares de fundos dos contribuintes. Segundo as suas próprias estimativas, tem queimado aproximadamente mais mil milhões de dólares por dia desde então. Isso equivale a aproximadamente 24 mil milhões de dólares — ou mais de 41 milhões de dólares por hora, ou cerca de 11.000 dólares por segundo.
Para compreender a dimensão de tal despesa, vale a pena considerar no que mais esse dinheiro poderia ter sido gasto. A Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional — que liderava os esforços humanitários no exterior até ter sido encerrada no ano passado, após a administração Trump desmantelar os seus programas — supervisionou só em 2024 35 mil milhões de dólares em dotações orçamentais. Um investigador de Harvard estima que as recentes interrupções na ajuda internacional já causaram centenas de milhares de mortes no estrangeiro devido a doenças e desnutrição.
A Corporation for Public Broadcasting, que distribui mais de 500 milhões de dólares em verbas federais anualmente para 1.500 media públicos — nomeadamente o Public Broadcasting Service (PBS) e a National Public Radio (NPR) — votou pela sua dissolução em janeiro, após quase sessenta anos de funcionamento. Isso ocorreu depois de o governo Trump ter cortado 1,1 milhar de milhões de dólares do seu financiamento para 2026 e 2027 — valor aproximadamente equivalente a um único dia de combates no Irão.
Enquanto isso, os planos do governo Biden — agora abandonados — de instituir uma licença federal familiar e médica foram projetados para custar cerca de 22 mil milhões de dólares por ano, com o objetivo de garantir a todos os trabalhadores do setor privado doze semanas de licença remunerada parental, familiar e por doença ao longo da próxima década. Após a previsível resistência do ex-senador Joe Manchin (Independente-WV), apoiado por empresas, o Congresso reduziu a proposta para quatro semanas antes de retirá-la completamente do pacote social e climático da administração, em 2021.
A expansão do crédito fiscal para crianças da era pandémica, que enviava às famílias pagamentos mensais de até 300 dólares por criança, reduziu a pobreza juvenil nos Estados Unidos a mínimos históricos. Tornar a expansão permanente teria custado ao governo federal uma média de 160 mil milhões de dólares por ano — o equivalente a pouco menos de cinco meses de combates no Irão. Esta proposta foi também pessoalmente sabotada por Manchin em 2022, fazendo com que milhões de crianças voltassem a cair abaixo do limiar de pobreza.
Aumentar o programa de almoços escolares do Departamento de Agricultura para oferecer refeições universais a todos os alunos de escolas públicas, independentemente do rendimento, custaria cerca de 11 mil milhões de dólares por ano, além dos 19 mil milhões que o departamento já gasta anualmente com almoços escolares.
Os gastos federais com saúde, por sua vez, custam aos contribuintes mais de 6 milhões de milhões de dólares por ano — mas o governo poderia poupar cerca de 450 mil milhões de dólares por ano, ou seja 13 por cento, com a implementação do Medicare para Todos.
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A autora: Veronica Ricobenne é repórter da The Lever com sede em Washington, DC. Ela tem experiência em televisão ao vivo, formato longo e vídeo vertical, bem como reportagens. É licenciada pela Universidade de George Washington
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18.2 – Produzir Drones como quem produz bicicletas
O custo de um drone kamikaze Shahed-136 k
Publicado por
em 11 de Março de 2026 (original aqui)
Um drone Shahed-136 fabricado no Irão é uma arma simples. As asas em delta, com envergadura de 2,5 metros, são feitas de fibra de vidro e terminam em dois estabilizadores verticais fixos. As aletas traseiras de controle são acionadas por um servomecanismo simples. O drone carrega um sistema de piloto automático, um recetor de posicionamento global e um módulo de dados. A propulsão é fornecida por um motor básico de quatro pistões com resfriamento a ar, feito de alumínio fundido, produzindo 50 cavalos de potência para acionar uma hélice propulsora traseira. Embora construído conforme especificações aeronáuticas, o motor não é muito diferente do que pode ser encontrado numa pequena motocicleta. O drone pode voar a uma velocidade de 185 quilómetros por hora transportando uma ogiva de 40 quilogramas por uma distância de 2.000 quilómetros.
Esta arma simples lançou a economia global em desordem. Desde que os EUA e Israel iniciaram uma guerra ilegal contra o Irão em 28 de fevereiro, as forças iranianas responderam lançando milhares de drones Shahed-136 contra alvos em toda a região. Estes atingiram não apenas instalações militares, mas também infraestrutura civil, incluindo refinarias, instalações geradoras de eletricidade, aeroportos, hotéis e navios; os drones têm constituído um elemento central da estratégia de retaliação do Irão e paralisaram o tráfego marítimo e aéreo. Os reinos do Golfo, Israel e os EUA gastaram escassos e caros mísseis intercetores para repelir os ataques de drones. A maioria das intercetações foi bem-sucedida, mas o enorme volume de lançamentos significa que o Irão atingiu muitos dos seus alvos.
Para compreender o armamento aéreo de longo alcance que define a crescente devastação e o caos provocado pelos drones iranianos, os jornalistas têm-se fixado no custo da plataforma Shahed-136. Dezenas de artigos citam o custo dos drones como algo entre 20.000 e 50.000 dólares — uma mera fração do custo dos mísseis intercetores, cujo preço pode chegar a 3 milhões de dólares. A justaposição de preços está a receber muita atenção, como uma ilustração evocadora da guerra contemporânea em rápida evolução.
Mas será esta comparação precisa? Uma análise do grupo de reflexão CSIS sobre o preço da variante russa do Shahed-136 explica a forma pouco científica como estas estimativas são habitualmente elaboradas:
É difícil saber com precisão o custo unitário dos drones do tipo Shahed da Rússia, que a Rússia fabrica internamente sob a designação “Geran-2”. Um especialista israelita em mísseis, escrevendo em janeiro de 2023, estimou um valor tão baixo quanto 20.000 a 30.000 dólares por drone. Mais tarde, um analista britânico situou o valor mais próximo dos 80.000 dólares, com base na sua inspeção pessoal, em outubro de 2022, dos componentes de um Shahed-136 capturado. A Forbes Ucrânia utilizou 50.000 dólares por Shahed para calcular o custo dos ataques russos… Ainda assim, para os nossos cálculos, utilizámos um custo unitário conservadoramente elevado de 35.000 dólares — o ponto médio entre a estimativa de custo mais baixa e os 50.000 dólares mais frequentemente citados.
A maior parte das estimativas do custo do Shahed-136 baseia-se na análise das variantes russas e nenhuma das estimativas públicas parece derivar de uma repartição real dos componentes de um drone fabricado no Irão. Os custos reais dos drones iranianos poderiam ser dramaticamente mais baratos do que se supunha — a assimetria de custos mais extrema. Os EUA e Israel instalaram um regime de sanções cada vez maior e um ataque militar ainda crescente com o objectivo ostensivo de tornar a condução da guerra demasiado “cara” para o Irão. À medida que a guerra de escolha engole a região e semeia o caos na economia global, é imperativo compreender o quão “barata” uma guerra pode ser agora.
O custo de um Shahed
Se o Irão estivesse a montar o Shahed-136 a um custo unitário de 35.000 dólares, isso representaria um grande fracasso da indústria de defesa do país, que priorizou o desenvolvimento de plataformas baratas que podem ser produzidas em série com dependência limitada de componentes importados. Os media iranianos não divulgaram o custo de produção do Shahed-136. Curiosamente, quando custos são citados em reportagens em persa, utiliza-se a mesma faixa de 20.000 a 50.000 dólares vista nas reportagens dos media internacionais.
Os Estados Unidos revelaram recentemente a sua versão do Shahed-136, chamada de Low-cost Uncrewed Combat Attack System, ou LUCAS. O CENTCOM [comando central dos EUA] informou a jornalistas que o LUCAS tem um custo de produção de 35.000 dólares. Esta é a evidência mais clara de que as estimativas de custo amplamente divulgadas para o Shahed-136 estão incorretas. Embora ligeiramente menor, o LUCAS é um drone mais avançado, produzido com materiais compostos, maior precisão e mais recursos, incluindo um terminal Starlink integrado. Mesmo que o LUCAS fosse mais rudimentar — e, portanto, mais semelhante a um Shahed-136 —, as diferenças inerentes nos fatores de custo envolvidos na produção de defesa — equipamentos, materiais e mão de obra, especialmente mão de obra qualificada — entre os Estados Unidos e o Irão necessariamente implica que os dois drones não podem ter o mesmo custo de produção.
Achei isto desconcertante. Produzir um drone kamikaze no Irão não pode ter o mesmo custo que produzir um drone semelhante com mão de obra mais cara, materiais mais avançados e tecnologia mais sofisticada nos EUA. Por isso, perguntei a um académico em Teerão com conhecimento da indústria de defesa iraniana se ele já havia encontrado alguma estimativa para o custo de produção do Shahed-136. Ele foi perguntar. O número com que voltou foi de 6 mil milhões de IRR, ou cerca de 4.000 dólares à taxa de câmbio principal atual. Embora a verificação deste valor esteja além do escopo deste artigo, ele fornece uma pista de que o Shahed-136 deve ser mais barato de produzir do que tem sido noticiado.
Um custo unitário de 4.000 dólares é obviamente muito inferior à maioria das estimativas amplamente divulgadas para o custo do Shahed-136. Por um lado, o preço em dólares reflete a significativa desvalorização do rial iraniano, impulsionada pela pressão das sanções sobre o mercado cambial do Irão. Nesse sentido, a taxa de câmbio pode estar a fazer com que os drones pareçam mais baratos do que realmente são. Por outro lado, o preço baixo pode refletir a significativa internalização da produção do Shahed-136. Mais do que os requisitos cambiais reais, representaria a relativa disponibilidade dos materiais, equipamentos e mão de obra necessários para fabricar esses drones. O meu contacto insistiu que a produção do Shahed-136 estava agora totalmente internalizada, o que significa que os componentes-chave são montados internamente.
Foi amplamente relatado que o motor MD-550 utilizado no Shahed-136 é totalmente produzido no Irão. Os componentes eletrónicos podem ser montados internamente utilizando antenas, microcontroladores, reguladores de tensão e osciladores importados. A montagem doméstica dos componentes eletrónicos não só reduz os custos, como também ajuda a manter as cadeias de abastecimento face às sanções. Componentes completos, como sistemas de piloto automático, podem ser classificados como “dupla utilização” e podem ser difíceis de obter. Especialistas iranianos assessoraram na criação da linha de produção do drone russo Geran-2 no parque industrial de Alabuga, oferecendo uma visão sobre as práticas de produção que provavelmente estão a ser utilizadas no Irão. O diretor da fábrica russa descreveu publicamente um processo de produção altamente eficiente: “Entram barras de alumínio, a partir das quais são fabricados motores; a microeletrónica é produzida a partir de chips elétricos; as fuselagens são feitas de fibra de carbono e fibra de vidro — localização completa.” De acordo com o Instituto para a Ciência e Segurança Internacional, a instalação de Alabuga reporta atualmente uma produção entre 18.540 e 24.460 drones por ano.
Dadas as dinâmicas em torno da taxa de câmbio e a probabilidade de que o Shahed-136 tenha conteúdo limitado de peças importadas, a melhor forma de entender a acessibilidade dos drones no contexto da base industrial de defesa do Irão é comparar o custo de produção com o custo de outros produtos manufaturados, especialmente produtos que também são fabricados nos Estados Unidos. Esta análise pode ajudar a revelar as diferenças nos custos dos fatores de produção subjacentes à produção de defesa nos Estados Unidos e no Irão.
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Tratores
Os países em guerra têm grandes setores agrícolas e ambos produzem tratores internamente. Por exemplo, o John Deere 5075M fabricado em Augusta, Geórgia, tem capacidades e características semelhantes ao trator Iran Tractor Company ITM 475 fabricado em Tabriz, Irão. Ambos utilizam motores de combustão interna a gasolina ou diesel, produzindo cerca de 75 cavalos de potência e acionando quatro rodas. O trator John Deere tem melhor eletrónica e utiliza um motor turboalimentado, mas os dois tratores são de tamanho semelhante, produzem potência semelhante e oferecem funcionalidade semelhante.
No início do ano passado, o preço de fatura do fabricante para o ITM 475 era de 8,5 mil milhões de IRR. Depois de descontar o IVA e contabilizar a margem bruta da Iran Tractor Company, que normalmente é de cerca de 13 por cento com base nos registos da empresa, o custo de produção do ITM 475 pode ser estimado em 6,8 mil milhões de IRR. Usando a taxa de câmbio principal no início de 2025, isso significa que o custo de produção do ITM 475 era de cerca de 7.000 dólares. Em comparação, o preço de tabela do John Deere 5075M era de cerca de 50.000 dólares no mesmo período. Considerando uma margem bruta de cerca de 25 por cento observada nos registos da John Deere e margens de revendedor de cerca de 8 por cento, o preço de fatura do fabricante é provavelmente de cerca de 35.000 dólares. Por outras palavras, os custos de fatores para um trator produzido em série são cerca de cinco vezes maiores nos Estados Unidos do que no Irão.
A matemática dos tratores e a matemática dos drones alinham-se bem. Aplicar a proporção de cinco para um nos custos de fabricação revelada pela comparação com tratores ao custo de produção de 35.000 dólares da plataforma LUCAS situa o preço de um Shahed-136 de fabricação iraniana em 7.000 dólares. Por outras palavras, com os recursos que os EUA gastam para fabricar um LUCAS, o Irão consegue produzir cinco Shahed-136.
Por conta das dinâmicas de taxa de câmbio, citar um preço em dólares para explicar o custo de produção dos drones iranianos pode ser enganador. O preço iraniano deve ser comparado ao de um sistema americano equivalente a fim de revelar a diferença nos custos dos fatores de produção. Em última análise, a principal conclusão aqui é que a produção de um drone Shahed-136 é, para o Irão, tão exigente em recursos e mão de obra quanto a produção de um trator agrícola básico. Assim sendo, a comparação monetária subestima a viabilidade de o Irão dar continuidade à sua atual campanha de drones. A Companhia de Tratores do Irão produz 35.000 tratores por ano, mesmo sob as restrições significativas das sanções de “pressão máxima”. Mas um drone também não é muito mais complexo de produzir do que um carro pequeno, e o setor automóvel iraniano fabrica mais de 1.000.000 de veículos de passeio anualmente, sustentado por uma grande indústria de aço e alumínio e por abundantes fabricantes domésticos de peças. Em resumo, o Irão dispõe de uma capacidade industrial prodigiosa e de estoques de materiais que podem ser transferidos da produção civil para a de defesa sob a urgência da guerra.
Sanções económicas e controles de exportação não conseguiram comprometer a capacidade do Irão de produzir drones, dado o baixo custo da plataforma e o movimento em direção à internalização da produção. Agora, as forças americanas e israelitas veem-se obrigadas a usar a força militar para atacar o arsenal de drones iraniano. Ataques aéreos têm visado instalações pertencentes ao fabricante do Shahed-136, a Iran Aircraft Manufacturing Industrial Company, também conhecida como HESA. Mas o Irão responderá dispersando a produção de drones por inúmeras instalações, incluindo locais subterrâneos. As autoridades americanas também estão em discussões para adquirir drones intercetores ucranianos como um meio mais custo-eficiente de se defender contra o Shahed-136. Porém, esses sistemas, embora mais baratos do que o uso de baterias Patriot ou THAAD, oferecerão apenas uma melhoria marginal nas taxas de interceção, que já estão próximas de 100 por cento.
O general Hossein Salami, que liderou o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica até à sua morte num ataque aéreo israelita no verão passado, disse uma vez a uma plateia que os avanços na indústria de defesa iraniana haviam tornado a fabricação de sistemas de armas “tão fácil quanto produzir bicicletas”. O custo de produção real do Shahed-136 sugere que a afirmação de Salami estava mais próxima da verdade do que muitos gostariam de admitir.
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O autor: Esfandyar Batmanghelidj é o fundador da Bourse & Bazaar, um grupo de reflexão focado em questões de diplomacia económica e desenvolvimento no Médio Oriente e na Ásia Central, e particularmente no Irão. Esfandyar também realizou pesquisas inovadoras sobre os efeitos das sanções em economias específicas e é Professor Adjunto na escola Johns Hopkins de estudos internacionais avançados em Bolonha, onde leciona um curso intitulado “Sanções e seus efeitos”. Ele foi membro do Conselho Global do Futuro do Fórum Econômico Mundial sobre o futuro do crescimento para o período de 2023-2024. De 2021 a 2022, foi bolsista visitante do programa do Médio Oriente e norte de África no Conselho Europeu de Relações Exteriores. De 2018 a 2020, foi colunista da Bloomberg Opinion, escrevendo sobre política e economia do Médio Oriente. É licenciado em ciências políticas e estudos do Médio Oriente pela Universidade de Columbia e mestre Executivo em Administração Pública pela London School of Economics.




