CARTA DE PARIS – David contra Golias – por Manuela Degerine

Imagem1Gerda Taro e Robert Capa em Paris

Três judeus, um húgaro, um polaco e uma alemã encontram-se em Paris, capital das vanguardas no início do século XX, onde adotam os pseudónimos que conhecemos – Robert Capa, Chim, Gerda Taro – e começam a trabalhar como fotógrafos. O mais novo, Robert Capa, tem 23 anos, a mais velha, Gerda Taro, 26, há entre eles trocas, debates, amizades, paixão, entreajuda…

Quando começa a guerra civil, partem juntos para Espanha. Tendo nos seus países sido confrontados com o nazismo e o antisemitismo, os jovens fotógrafos sabem que nesta guerra, para além de homens – uns aliás com velhas espingardas, os outros com bombas e aviões – se opõem valores humanos; e o exército hitleriano apoia os nacionalistas espanhóis. Escolhem portanto o ponto de vista republicano. E inventam a reportagem de guerra. Publicam fotografias nos magazines Vu, Regards e no quotidiano Ce soir dirigido por Louis Aragon. Mostram o povo na guerra… Milicianos calçados com alparcatas. Um refugiado desloca-se com um saco – contendo o quê? – e dois cobertores às costas, seguido por uma idosa de pantufas: a avó? Três mulheres levantam o punho à beira do passeio; os rostos, os corpos – e uma criança – exprimem o comum sofrimento. Num comício outra mulher dá de mamar ao filho. Ruínas e mais ruínas. Cadáveres pelo chão. Dolorès Ibarruri, Malraux, Hemingway… Chim interessa-se mais pela vida quotidiana, Robert Capa e Gerda Taro arriscam-se na frente de combate, o que implica distintas maneiras de fotografar: Chim pode juntar dois ou três temas na mesma película; Robert Capa e Gerda Taro enchem-na e, mais tarde, selecionam as imagens mais sensíveis, mais percutantes, mais trágicas…

Gerda Taro será morta na batalha de Brunete em julho de 1937. Robert Capa acompanhará os republicanos até aos campos onde o governo francês – “Front Populaire” – os detém à espera dos vistos de emigração. Numa destas imagens mostra, enquadrada pela guarda nacional francesa, a fila dos combatentes com o que resta de uma grande luta, alguns cobertores, uma mala de cartão… Dos três homens que à frente caminham, um sorri, o do meio baixa a cabeça e o da direita, o mais alto, encara o fotógrafo.

Robert Capa é obrigado a deixar o n° 37 de Rua Froidevaux, onde reside, para escapar à ocupação alemã. Embarca para Nova Iorque confiando os negativos da guerra de Espanha a um amigo, Csiki Weisz; o qual os põe na mochila e pedala até Bordéus. Em seguida estes negativos atravessam peripécias que não foram todas esclarecidas, de tal modo que em 2007 parte deles se encontra na posse de um cineasta mexicano que os herdou da tia, amiga de um diplomata em França durante a segunda guerra mundial… Trata-se da “mala mexicana”, constituída afinal por três caixas contendo quatro mil e quinhentos negativos de Robert Capa, Chim e Gerda Taro etiquetados em francês. São agora, até ao dia 30 de junho, o tema de uma exposição no Museu de Arte e História do Judaísmo em Paris (www.mahj.org).

Leave a Reply