A VIDA SOFRIDA DE ANTONIO GRAMSCI – por Adelson Vidal Alves*

*Transcrito, com a devida vénia e os nossos agradecimentos a Adelson Vidal Alves,  do blogue DEMOCRACIA E SOCIALISMO
Imagem1O interesse pela obra de Gramsci cresce cada vez mais no Brasil, tanto a nível acadêmico como nos círculos da política. O pensador italiano é leitura indispensável nos cursos de História, Filosofia, Sociologia e Ciência Política. Tem influência significativa em partidos que vão da extrema esquerda, como o PSTU, até os de Centro-Esquerda, como PSB e PPS.
 Apesar da difusão de sua teoria, a vida sofrida de Gramsci é desconhecida de grande parte de seus leitores. Prevalece-se a ideia do encarcerado do regime fascista, que escreveu seus principais apontamentos preso. Um sofrimento por si só terrível, mas que sequer resume a dolorosa experiência do teórico sardo em sua curta existência. Uma das grandes biografias produzidas de nosso autor foi escrita por Laurana Lajolo (Vida de Antônio Gramsci, Editora Paz e Terra), e que sem dúvida é leitura fundamental para quem se interessa pelo pensamento  e vida do maior teórico marxista das “Sociedades ocidentais”.
Antônio Gramsci nasceu na Sardenha, Itália, em 22 de Janeiro de 1891. Logo cedo, ainda bebê, levou um tombo que lhe trouxe sérios problemas de coluna, pelo qual desenhou sua estrutura física corcunda. Ainda criança tem seu pai preso, e é obrigado a trabalhar com apenas 11 anos de idade, tendo que abandonar o ensino primário. Em 1913 ganha uma bolsa de estudos em Turim, não consegue realizar os exames, sofre com transtornos mentais e vê seu corpo definhar com o duro peso do trabalho.
Ainda sim, ingressa no movimento socialista, ajuda na fundação do PCI (Partido Comunista Italiano), sendo decisivo nos debates. Volta a adoecer, vindo a ser internado em Moscou, onde conhece Julia Schucht, que se apaixona e se casa. Apesar dos problemas depressivos de sua esposa, Gramsci segue adiante em sua brilhante contribuição no debate revolucionário internacional, consolidado com sua eleição para deputado em 1924. É preso em 1926, ainda que portando imunidade parlamentar. Seu martírio vital entra então em sua fase mais sombria.
Temendo o “cérebro que devia parar de funcionar por pelo menos 20 anos”, para usar as palavras do promotor fascista, o regime de Mussolini só lhe autoriza a escrever em 1929, ainda sim sob forte vigilância do presídio. Seu estado de saúde piora diante do insalubre sistema carcerário do fascismo. Seu rosto envelhece, incha, se deforma. Seus dentes caem, a insônia o atormenta, doenças como hipertensão são diagnosticadas. As crises são cada vez mais constantes. Certa vez caiu no chão de sua prisão, vomitando sangue e delirando. É atendido por colegas de cela, mas ainda sim o caminho de uma recuperação já era improvável.
O tormento vital, contudo, não veio apenas de sua frágil saúde. Vítima de distorção do “marxismo” Stalinista, fora mal interpretado por prisioneiros políticos que cumpriam pena com ele. Certa vez quando passeava pelo pátio do presídio foi atingido por uma pedra, por alguém que o criticava, chamando no de “social-democrata oportunista”. Eram tempos que viriam obrigar a Gyorg Lukács a fazer uma bizarra autocrítica quanto ao marxismo vulgar do Stalinismo, e que Walter Benjamin afasta-se da atividade partidária. Ainda que em proporções diferentes, são três gênios do marxismo que penaram na mão do dogmatismo pobre do “Marxismo-leninismo”.
Por fim, Antônio Gramsci é liberto em 1935, mas suas condições de saúde o levariam a óbito dois anos depois, em 27 de Abril de 1937.
 A vida sofrida de Gramsci pode permanecer como objeto de desinteresse por grande parte de nossa esquerda. Entretanto, no meu entendimento, sua biografia testemunha uma grande declaração de amor a revolução, uma espécie de alento em tempos de letargia. Trata-se de uma prova viva de militância corajosa, vindo daquele que sempre quis vencer o pessimismo da razão, com o otimismo da vontade.

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