CHAMARAM-LHE PORTUGAL – 34 – por José Brandão

Casamento de D. Afonso VI

Tratou-se de fazer casamento a el-rei, posto houvesse razões, e decisivas, para o não tentar. Era quase impossível que o defeito de el-rei D. Afonso VI não fosse conhecido da corte e dos ministros. Antes de partir para França, como embaixador extraordinário, a negociar o casamento, o marquês de Sande, como lhe tivesse chegado a fama pública e constante da incapacidade de el-rei para ter filhos, propôs esta dúvida ao conde de Castelo Melhor; este respondeu, «com alguma perturbação», que a fama era falsa, porquanto em sua casa se criava uma filha de D. Afonso. Assim o referia o duque de Cadaval no processo de nulidade de matrimónio. Os acontecimentos seguiram seu curso até à lógica e fatal consequência.

Assentou-se no casamento de el-rei com D. Maria Francisca Isabel de Sabóia, filha de Carlos Amadeu de Sabóia, duque de Nemours. Tanto Carlos Amadeu, como sua mulher, a duquesa Isabel, eram já falecidos. O casamento foi negociado pelo marquês de Sande, embaixador de Portugal em Paris; naquela cidade foi assinado o contrato, a 24 de Fevereiro de 1666. Em Junho partiu D. Maria Francisca de Paris para a Rochela, onde a 27 se casou, sendo el-rei de Portugal representado pelo marquês de Sande, como procurador. Embarcou a 30 de Junho para Lisboa, mas por causa do mau tempo só no dia 4 de Julho largaram da Rochela.

A 2 de Agosto, de manhã, chegou a rainha a Lisboa. Pelas 6 horas da tarde, como quem não tinha pressa, foi el-rei vê-la a bordo e trouxe-a para terra com luzido acompanhamento. Passaram pela igreja das flamengas, onde os esperava o bispo de Targa, que lhes lançou as bênçãos.

Dirigiram-se depois à quinta de Alcântara, que estava magnificamente adereçada. Ali a rainha ceou com as damas, camareira-mor e oficiais da casa, el-rei ceou nos seus aposentos. Com aqueles que lhe assistiam desanuviou D. Afonso o espírito do aborrecimento que lhe causara toda aquela fastidiosa solenidade, e quando chegaram as horas em que devia dirigir-se ao quarto da rainha, não houve diligências nem persuasões que o obrigassem a isso, alegando pretextos de indisposições.

A rainha, segundo afirmam os contemporâneos, era formosíssima. El-rei aproximava-se dela, amável e atencioso; por descargo de consciência, dirigia-lhe galanteios, mas continha-se sempre na reserva, que em sãos pode ser virtude e em doentes é mera incapacidade.

Assim decorria a lua-de-mel de D. Maria Francisca, em desolação e tristeza infanda, que não podia ter sequer o lenitivo de um desabafo! Vítima inocente de conveniências e arranjos políticos, via-se amarrada a um tálamo vazio, com o seu pudor virginal exposto em breve a comentários irreverentes. Na sua ignorância da vida, nem lhe era dado imaginar o termo a que poderia conduzi-la aquele antagónico estado de casada e donzela, nem como libertar-se da ignomínia de um marido sem virilidade e sem espírito, aviltado por mórbida depressão intelectual e dominado somente por tendências abjectas.

Bem digna de lástima era a princesa pela cruel sorte que a trouxera a Portugal; e, todavia, como se não bastassem a torturá-la as observações maliciosas que facilmente adivinharia naqueles que a rodeavam, ainda no século XIX escritores levianos ou pouco escrupulosos deram largas à fantasia para lhe denegrirem a memória em conjecturas absurdas e difamatórias.

Intrigas e dissensões na corte — Exclusão do conde de Castelo Melhor

Na corte de D. Afonso VI faltava a elevação e gravidade que naturalmente derivam da autoridade de um monarca prestigioso. Procurando cada um aproveitar a incapacidade de el-rei em beneficio das próprias ambições, em breve se encontrou a corte envolvida numa atmosfera de intrigas e rivalidades de que nasciam incidentes desairosos. Não nos demoraremos a referi-los, porque os contemporâneos divergem nos pormenores, e não é possível reconstituir os factos em todo o seu significado, mas a lição geral que eles deixam é de rebaixamento indigno da corte.

A rainha vivia amargurada, por vezes a viram chorar. O marido, além de inútil, tratava-a com desabrimento impróprio da dignidade real. Diz um escritor da época: «A rainha se mostrava melancólica, dando a entender vivia violentada e desgostosa, tanto pelo pouco amor que el-rei lhe mostrava, como por algumas demasias com que o Castelo Melhor a tratava, segundo ela dizia.» Do secretário de Estado António de Sousa de Macedo também se conta que falou à rainha menos respeitosamente, «desestimação que tinha bebido no interior do conde» de Castelo Melhor.

Apesar do seu claro espírito, que nos últimos lances da guerra mostrara grandes qualidades de homem de governo, o conde de Castelo Melhor ou se deixou cegar pela vertigem do poder ilimitado ou não soube preservar-se da rede de intrigas que se tecia na corte. Como tinha inimigos, estes atribuíam-lhe a responsabilidade dos desatinos de el-rei e dos escândalos que eram do domínio público.

Em caso nenhum podia o infante D. Pedro desinteressar-se do mau caminho que levavam os negócios da corte; solicitavam a sua atenção as conveniências do reino, a defesa do prestígio da família e do seu próprio interesse pessoal, como herdeiro da Coroa. Era natural que tivesse má vontade ao conde de Castelo Melhor, que, com o seu poder ilimitado, mantinha o equívoco da fictícia autoridade de D. Afonso, sem dar remédio às quebras do prestígio real que escandalizavam toda a gente. Pela sua parte, o conde de Castelo Melhor não perdoaria ao infante o perigo de uma intervenção que o derribasse.

No princípio de Setembro de 1667 queixou-se o infante D. Pedro a el-rei de que o conde de Castelo Melhor atentava contra a vida dele, infante, e projectara dar-lhe veneno. Ou fosse intriga forjada, mera suspeita ou informação verdadeira, a queixa era formulada em termos enérgicos, e foi repetida quando no Conselho de Estado se pretendeu escurecer a importância do caso. Divulgando-se a notícia da queixa e do objecto dela, engrossou a corrente de ódios que entre nobres e populares havia contra o conde. Finalmente, não podendo el-rei sustentar o valido, em 9 de Setembro de 1667, à noite, chamou-o e disse-lhe que se retirasse da corte, aguardando melhores dias. O mais breve que pôde preparou o conde de Castelo Melhor a sua viagem; no dia 11, às duas horas depois da meia-noite, saiu para Torres Vedras, e recolheu-se em um mosteiro de arrábidos, situado a meia légua daquela vila.

Com a retirada do conde não melhoraram os negócios, pois subsistia a causa principal da desorientação.

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