POESIA AO AMANHECER – 159 – por Manuel Simões

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FRANCISCO MANUEL DE MELO

( 1611 – 1666 )

 

MEMÓRIAS E QUEIXAS

Esses mares que vejo, essas areias

rompi, pisei, beijei hoje há sete anos;

sete servi, sete perdi, tiranos

sempre os fados nas vozes das sereias.

Tantos há que, arrastando cruéis cadeias,

não guardo ovelhas, mas aguardo danos,

das fermosas Raquéis vendo os enganos,

sem a promessa ouvir das Lias feias.

Sofra Jacó fiel Labão mentindo,

que, se dobra o servir, da alta consorte

já não pode negar-lhe a mão devida.

Ai do que espera, quanto mais servindo!

Para um tão triste fim, tão leda a morte!

Para um tão largo amor, tão curta a vida!

(De “Obras Métricas”)

O poema estabelece uma relação íntima com o soneto camoniano “Sete anos de pastor Jacob servia”, embora não se trate de mera imitação, visto que aqui se traça uma rede complexa, tão cara à estética barroca, como a repetição e o oxímoro. Autor prolífico, como se sabe, publicou o volume “Obras Métricas” (1665), divido em três partes, a segunda das quais (“As segundas três musas do Melodino”) contém os textos em português, sendo a primeira e a terceira constituídas por poemas em castelhano.

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