EXPO-VIRTUAL – INFORMAÇÃO

Hoje, com o terceiro quadro de Vasco de Castro, completamos a primeira metade da EXPO-VIRTUAL. Será às 14 horas.

Como temos dito, todos os seis quadros foram escolhidos entre os que em 2012 expôs na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa. No catálogo desta exposição, dizia Mário Beja Santos:

Vasco e a exaltação do anti-ícone – por Mário Beja Santos

Aproximadamente entre 1965 e 1985, Vasco nutriu uma atração fatal por um génio da poesia, um tal Fernando Pessoa que saía do semianonimato e ganhava esporas de virtude ou supremo vate. Em 1965, Fernando Pessoa entra no desenho de Vasco já desfocado da convenção que se instalava: o correspondente comercial emerge soturno da penumbra, é um vulto hierático, o desenho emoldura uma pose de funcionário de quem não se pode imaginar que escrevia cartas de amor ridículas.

Tudo em geometrismo austero, a preto e branco, a marca de água do seu desenho de humor. Trata-se de um desenho contemporâneo de uma época em que o artista já granjeara uma reputação na principal imprensa francesa pela singularidade álacre das suas figuras transformadas em olhos cabeleira, pingos brotados sempre a preto e branco, traços de zomba e mofa contidas, tudo concentrado no essencial do retratado, político ou notabilidade.

Desenhos não vistosos mas suficientemente impressivos para jamais se esquecerem. Essa atração fatal reverbera durante 20 anos num Fernando Pessoa Proteu ou camaleónico: Pessoa superstar, a modos de Andy Warhol, a fazer trio com D. Sebastião e Camões, na estúrdia, enfarpelado ao lado de Mário Sá Carneiro, em nu hedónico, em cinzeiro. Um Fernando Pessoa a fazer comédia, bem faceto, das homenagens nacionais, já disputado pela cultura de massas. São sempre imagens anti-iconográficas e que contrariam a gradual reputação que o senhor dos heterónimos ia averbando pelo mundo inteiro. Vasco foi-se deixando enredar pelo seu Pessoa, narigudo, ensimesmado, sempre na aflição financeira, enfim um Pessoa imaginado boémio, mesmo engomado à mesa do café, e com dois números no Orfeu, para contrariar o registo de Almada.

Em 1985, Vasco esboçou um Pessoa retorcido, depurado, uma sombra com óculos, um nariz adunco ligando diretamente com um tronco onde o desenhador (Vasco?) parece questionar: o poeta é um fingidor e a dor que deveras sente é fruto da minha vontade, assim te catapulto à imortalidade, ponto final. Por esse tempo Vasco vive em deslumbramento com as cores sanguíneas associadas a cinzentos lúgubres, tons imanentes à profunda admiração que sempre teve pelo estorcimento ao jeito de Francis Bacon. Isto para dizer que desses tempos áureos de Paris o Vasco não esquecera as lições de Maria Aliete Galhoz, a sua professora que nos anos 50, num ermo chamado Vila Real, o iniciou na excelência pessoana.

Vasco irá cultivar o prosaico por todo um tempo em que Pessoa anda nas mãos de gente culta que o alinda na retórica nacional. Poucos outros artistas cultivaram um tal e tão perdurado idílio com o noivo eterno de Ofélia, e o assombroso dessa relação aqui está, nesta exposição, um Pessoa que escapa à vulgaridade e à santidade de altar, um Pessoa arredio aos cânones, nunca mergulhado no mistério da sua vasta sabedoria. É por isso que esses 20 anos são correspondentes à admiração sincera de artista para artista, e o artista do humor nunca se deixou ofuscar pelo génio nacional e internacional. Foram tão íntimos que se pode falar, com propriedade, dos saudosos tempos Vasco Pessoa. Até porque o Fernando ficou um pouco de fora nesta atração fatal: amigos, amigos na paródia, artistas à parte!

 

AMANHÃ, APRESENTAMOS O QUARTO QUADRO DE ADÃO CRUZ

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