Propusera a Isabelle que fôssemos no dia 12 de março à abertura de uma exposição de Augusto Grácio em Paris; eu passava por casa dela, junto à Rue de Provence, depois prosseguíamos a pé até à Place des Vosges.
Nevou durante todo o dia, leve, levemente porém, ao contrário do que costuma suceder, a brancura foi-se acumulando e, quando às seis horas cheguei a casa da minha amiga, Paris era uma cidade de prata. (Vira adolescentes a deslizar de trenó num declive de parque situado em frente do meu prédio: uma variedade de sku que, até aos dezoito anos, sempre diverte.) Circulavam alguns carros – muito raros – pelas ruas. Lentamente. Ah, como são vastas as cidades sem automóveis… Como são silenciosas…
Esta raro se mostra alva e enigmática a quem, como nós, lhe conhece os segredos, por isso não desistimos da caminhada, embora movendo-nos com precaução, para não escorregarmos, já que em alguns sítios os cristais, sendo pisados, derreteram e voltaram a gelar. Rue Montmartre, Rue du Roi de Sicile, Rue des Francs Bourgeois… Fomos olhando e conversando. A redução das cores, a interrupção do tráfego, a ilusão das distâncias, a modificação dos contornos de carros, motas e edifícios, o arredondamento de todos os ângulos, a lentidão de todos os movimentos, quer humanos quer motorizados, a manta luminosa – em alguns sítios intocada – envolvendo uma cidade com tanta gente, tudo isto produzia uma sensação de irrealidade. Hesitávamos em reconhecer este ou aquele lugar, pois a memória registara outros sons, outras cores, formas, atividades, proporções entre rua, passeios e edifícios… Agora – por exemplo – a uniformização da rua com os passeios dava às avenidas dimensões fenomenais. Enterrávamos as solas numa candura macia… Atravessávamos morros de iogurte ou pudim molotof – consoante a consistência. Sentíamos ranger o gelo debaixo das solas. Controlávamos os escorregões, evitávamos as quedas, agarrávamo-nos à conversa, ainda lógica, ainda habitual, que mantivéramos e, para evitar a metamorfose em bonecos redondos, sacudíamos dos ombros os flocos brancos… Ríamos. Chegámos encantadas à place des Vosges.
(Continua.)
