(continuação de Castelão III)
De acordo com a nova Constituição, a Espanha era uma república unitária, mas o movimento galego, onde Castelao se destacava, não desistiu e procurou obter a autonomia da Galiza com estatuto próprio. O Concelho de Santiago de Compostela promove uma Assembleia de Concelhos Galegos em Abril de 1932, Assembleia essa que se realiza em Dezembro do mesmo ano naquela cidade, onde o anteprojecto do Estatuto acaba por ser aprovado, votando a favor 256 concelhos da Galiza, o que correspondia a cerca de 80% da população da região, a que naturalmente o governo central se vai opor, não declaradamente mas empatando o processo de aprovação do Estatuto nas Cortes.
Entretanto, nas Cortes, Castelao intervém a favor do Estatuto Catalão. Neste mesmo ano de 1932, mais precisamente no mês de Agosto, Xoán Xesús González, que foi membro do PSOE, funda a Unión Socialista Galega, um partido de tendência galeguista e marxista, que iria ter uma vida curta, não resistindo ao fracasso nas eleições gerais de 1933, implantando-se apenas na zona de Santiago de Compostela, não tendo conseguido o objectivo de se enraizar na Galiza.
Entre 1933 e 1934, Castelao torna-se membro da Real Academia Galega, tomando posse em 25 de Julho deste último ano com uma dissertação sobre «As cruces de pedra na Galiza».
Politicamente, as coisas não vão resultar tão felizes para Castelao; no entanto, não devemos esquecer a aliança que o seu grupo promove com os nacionalistas vascos e catalães (Pacto Galeusca), o que não apaga o desastre político que resultou da dissolução das Cortes em Setembro de 1933, que foi a não eleição de Castelao em Novembro desse ano e, pior ainda, a vitória da direita e a estrondosa derrota dos galeguistas, que ficaram sem qualquer representação nas Cortes, o que não o levou, apesar de tudo, a abandonar a vida política, sendo, nesta qualidade de político, nomeado Secretário Político do Partido Galeguista. Mas, graças ao muito tempo livre que passou a ter, Castelao pôde dedicar-se mais à sua vida artística e literária. Realcemos os desenhos da cenografia da peça de Ramón del Valle Inclán, «Divinas palavras», estreada em Madrid em 16 de Novembro de 1933, assim como a publicação de «Retrincos», «Os dous de sempre» (novela), e «Cousas» (um volume onde junta o «Primeiro» e o «Segundo Libro»).
Em 1934 há dois factos políticos, quase coincidentes, que vão ter influência na vida de Castelao: a insurreição dos mineiros de carvão em 4 de Outubro e, dois dias depois, a proclamação unilateral do Estado Catalão da República Espanhola, sobre os quais apetece tecer algumas considerações mas o nosso objectivo é falar de Castelao e, na sequência dos dois factos, o Governo conservador tomou várias medidas, uma delas atingindo o nosso autor, exilando-o em Badajoz, exílio esse que só terminaria em Setembro de 1935. Entretanto e para além do exílio de Castelao, também Alexandre Bóveda Iglesias, um dos mais importantes intelectuais galeguistas, que Castelao considerou ser o motor do Partido Galeguista, foi ao mesmo tempo desterrado para Cádiz.
A reacção do governo conservador foi bem mais violenta na repressão de todas as acções da esquerda, sendo o Partido Galeguista decapitado e, por fim, suspensa a publicação A Nosa Terra, embora, no exílio, Castelao ainda tenha tido a oportunidade de para este jornal ter escrito mais de uma dezena de artigos, posteriormente incluídos na sua obra Sempre en Galiza, talvez o seu ensaio mais importante, sobretudo para o nacionalismo galego. Ainda no exílio, ataca severamente a direita galeguista, visando, para além de outros, Vicente Risco em particular
Com o crescimento do fascismo na Europa, o movimento dos trabalhadores espanhóis radicalizou-se, criando dificuldades à estratégia do Partido Socialista (PSOE), que procurava apoio para a implantação de reformas graduais contra o governo conservador.
A Castelao – como também a Alexandre Bóveda -, findo o exílio, é prestada uma homenagem de desagravo, que obteve a assinatura, nomeadamente, de Leopoldo Alas e Manuel Azaña Diaz (que viria a formar governo após a vitória eleitoral da coligação de partidos de esquerda – Frente Popular – e, em 10 de Maio de 1936, a ser nomeado Presidente da República).
A Frente Popular é constituída em 1936, à qual adere o Partido Galeguista, tendo em conta que aquela coligação de partidos acolhe a reivindicação da autonomia galega; no entanto, esta adesão provoca uma divisão, saindo do Partido Galeguista a ala direita, dirigida por Vicente Risco, aliando-se à Dereita Galeguista de Pontevedra, criada em Maio de 1935, a qual fica a dirigir.
Apesar desta posição, Risco não deixa de fazer campanha em prol do sim pelo Estatuto de Autonomia da Galiza, apesar de temer pela Igreja Católica; no entanto, não reage à soblevação do exército nem aos assassinatos e aos aprisionamentos de muitos dos seus companheiros galeguistas, vindo mesmo a apoiar, como Director da Escola Normal de Ourense, a reposição da cruz na escola pelos franquistas, sendo em 1938 um dos colaboradores em La Región com artigos que claramente apoiavam os fascistas de Franco, atraiçoando os ideais galeguistas que defendiam a Autonomia da Galiza, traição essa bem caracterizada por Castelao, como pode ler-se no já referido Sempre en Galiza, quando escreve «dizia Risco, cando Risco era alguén».
Nas eleições de Fevereiro de 1936, a Frente Popular faz eleger na Galiza 26 deputados, um êxito claro se atentarmos que a direita consegue eleger 11 deputados e o centro não mais do que 9, sendo Castelao um dos 26. Este êxito dá grande alento aos que lutam pelo Estatuto de Autonomia da Galiza. Por esta causa, para além do Partido Galeguista de Castelao, lutam também a Isquierda Republicana, os centristas de Portela Valladares e, naturalmente por influência de Vicente Risco, a Dereita Galeguista, o que levou à sua aprovação por grande maioria, com uma participação de cerca de 75% do eleitorado.
Esta aprovação leva Castelao a Madrid, no início de Julho de 1936, reunindo com o Presidente das Cortes, Diego Martinez Barrio, e depois com o Presidente da República, Manuel Azaña, mas, no dia seguinte a esta reunião, no malfadado dia 18 de Julho de 1936, começa a Guerra Civil de Espanha.
Segundo Henrique Monteagudo, foi esta viagem de Castelao a Madrid que o livrou de sofrer a repressão havida de seguida na Galiza e que, certamente, também o terá livrado da prisão e do fusilamento a que muitos dos seus companheiros na luta pela autonomia da Galiza foram condenados, como Alexandre Bóveda, detido em 20 de Julho de 1936, acusado de traição e condenado à morte em 13 de Agosto, sendo fusilado 4 dias depois.
Castelao, numa entrevista ao Hoy, de Havana, diz que continuava em Madrid por causa da entrega do Estatuto Galego. «Três dias antes de rebentar o movimento – palavras do escritor e político -, quis regressar à Galiza. Cheguei à estação no preciso momento em que partia o comboio. Vi partir o comboio e fiquei muito triste porque eu sabia que ia rebentar o movimento em África, e queria estar na minha terra. No dia seguinte já não havia comboio. A isso devo estar vivo, provavelmente.»
Mantém-se em Madrid até finais de Outubro, organizando, em colaboração com o Partido Comunista de Espanha, umas milícias galegas, partindo de seguida para Barcelona e, no mês seguinte, para Valência, onde é constituído o Governo da República.
Entretanto, Castelao não desiste de lutar pela aprovação nas Cortes do Estatuto de Autonomia da Galiza, assim como pela defesa da República, fazendo propaganda em algumas publicações (Nueva Galicia, de Madrid, e Nova Galiza, de Barcelona) com desenhos da sua autoria (Verbas de chumbo). O Estatuto acaba por não ser aprovado nas Cortes, dado que o Partido Socialista se negou a nomear os seus representantes, o que leva à sua paralização.
(continua)


1 Comment