POESIA AO AMANHECER – 168 – por Manuel Simões

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ABADE DE JAZENTE

(1719 – 1789)

ADEUS, Ó PORTO, ADEUS; FICA-TE EMBORA”

Adeus, ó Porto, adeus; fica-te embora,

que eu já não posso mais; porque me cansa

tanto chá, tanto Whist, tanta dança,

e tanta cousa mais que calo agora.

Não era há pouco assim: tudo empiora,

o bem se acaba, o mal raízes lança;

e tem-se feito em tudo tal mudança,

que até por novo estilo se namora.

Adeus, pois: porque o resto dos meus dias

quero dar às lições dos desenganos

sempre saudáveis, posto que tardias.

Adeus casas de brinco; adeus enganos;

chichisbéus, excelências, senhorias;

adeus Ninfas gentis, que fazeis anos.

(de “Poeias de Paulino Cabral de Vasconcelos, Abade de Jazente”)

Não é possível tentar identificar a obra do Autor com um momento, corrente ou modelo literário do século XVIII: barroco (tardio), neoclassicismo, romantismo (pré- ou não). Neste soneto transparece ainda o tema do desengano e da mudança, servindo-se de um quotidiano concreto: o da vida social do Porto. Foi um dos poetas da chamada “Arcádia Portuense”

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