Selecção, tradução e nota introdutória por Júlio Marques Mota
Seja bem-vindo a 1931
J. Bradford DeLong e Barry Eichengreen
Novo prefácio à obra de Charles Kindleberger, The World in Depression 1929-1939
Parte III
(conclusão)
O Fundo Monetário Internacional, entretanto, não está suficientemente bem capitalizado para fazer esse trabalho e ainda seria necessário que os membros não-europeus lhe permitissem que o FMI o fizesse e isto, na verdade, continua a ser muito duvidoso. Visto a partir da Ásia ou, aliás, do Capitólio, os problemas da Europa só podem ser resolvidos correctamente na Europa. Mais concretamente, a ideia é a de que o dinheiro necessário para resolver a crise económica e financeira de Europa deve vir da Europa. O governo dos Estados Unidos e o sistema de Reserva Federal, por sua vez, não têm outra escolha que não seja a de ver os problemas europeus como quem está de lado. Um governo americano sem dinheiro não teria recursos para intervir grandemente nos assuntos da Europa em 1948, como o fez; não haverá no século XXI nenhum programa análogo ao plano Marshall, quando os Estados Unidos através do Economic Recovery Programme, do qual o jovem Charles Kindleberger foi um grande arquitecto, concederam um generoso pacote de ajuda externa para ajudar a estabilizar um continente instável. Hoje, em contrapartida, o Congresso não está nada inclinado a permitir que a Grécia, Irlanda, Portugal, Itália e Espanha se incorporem no Delaware como uma holding bancária e se juntem ao Federal Reserve.(7)
Num certo sentido, Kindleberger previu tudo isso em 1973. Ele viu o poder e a vontade dos Estados Unidos para suportar a responsabilidade e os encargos de sacrifício necessários à existência de uma hegemonia benevolente como sendo susceptíveis de não se verificarem nas gerações seguintes. Ele viu três positivos e três negativos ramos na árvore de probabilidades do que então se apresentava como possível futuro. Os resultados positivos foram: “[i] uma revivida liderança dos Estados Unidos… [ii] uma afirmação de liderança e o assumir de responsabilidades pela Europa…” [aqui e agora, em 2013, podemos ser levados a adicionar os mercados emergentes como a China como estando potencialmente a querer alcançar a possibilidade de assumir a liderança, embora na prática, as autoridades chinesas se tenham mostrado relutantes em ir nesse sentido e [1]][iii] a transferência da soberania económica para as instituições internacionais…” Aqui, num certo sentido, Kindleberger tinha as Instituições quer global quer regionalmente em mente e com elas estava a pensar na Europa. “A última”, a significar uma solução global, “é a mais atraente”, concluiu, “mas talvez, porque difícil, é a menos provável. Os resultados negativos foram: “(a) os Estados Unidos e a [UE] a competirem entre si pela liderança… (b) um incapaz de a conduzir e o outro a não o desejar fazer, como aconteceu de 1929 a 1933… (c) cada um a manter o seu veto… sem procurar assegurar programas positivos…”
Como já o escrevemos, o mundo do Atlântico Norte parece ter sido atingido devido aos seus maus resultados, por um extraordinário disfuncionamento no plano político impedindo-se assim o governo dos EUA de agir como uma potência económica benevolente e com os mandarins dominantes da Europa, em especial na Alemanha, a não estarem dispostos para avançar e assim a deverem procurar convencer os seus eleitores que estes devem assumir essa tarefa.
Foi o medo desse mesmo futuro que levou Kindleberger a acabar The World in Depression com a seguinte observação: “Nestas circunstâncias, a terceira positiva alternativa, a das instituições internacionais com uma verdadeira autoridade e soberania é uma necessidade premente.”
Na verdade isto é assim, e muito mais agora do que nunca.
Referências:
Eichengreen, Barry (1987), “Hegemonic Stability Theories of the International Monetary System”, in Richard Cooper, Barry Eichengreen, Gerald Holtham, Robert Putnam and Randall Henning (eds.), Can Nations Agree? Issues in International Economic Cooperation, The Brookings Institution, 255-298.
Friedman, Milton (1953), “The Case for Flexible Exchange Rates”, in Essays in Positive Economics, University of Chicago Press.
Friedman, Milton and Anna J Schwartz (1963), A Monetary History of the United States, 1967-1960, Princeton University Press.
Gilpin, Robert (1987), The Political Economy of International Relations, Princeton University Press.
Keohane, Robert (1984), After Hegemony, Princeton University Press.
Kindleberger, Charles (1978), Manias, Panics and Crashes, Norton.
Krugman, Paul (2003), “Remembering Rudi Dornbusch”, unpublished manuscript, http://www.pkarchive.org, 28 July.
Lake, David (1993), “Leadership, Hegemony and the International Economy: Naked Emperor or Tattered Monarch with Potential?”, International Studies Quarterly, 37: 459-489.
Wolf, Martin and Lawrence Summers (2011), “Larry Summers and Martin Wolf: Keynote at INET’s Bretton Woods Conference 2011”, http://www.youtube.com, 9 April.
1. Kindleberger faleceu em 2003. Uma segunda edição modestamente revista e alargada da obra The World in Depression foi então publicada, também pela University of California Press, em 1986. A segunda edição diferia principalmente por responder aos críticos do autor e por aí se comentar alguma da literatura posterior. Nós preferimos reproduzir o Kindleberger ‘nu e cru’ de 1973, onde os pontos chave são escritos de forma muito singela.
2. O livro foi originalmente encomendado para uma série sobre a história económica da Europa, em que cada autor se encarregava de tratar uma década. Isto levanta a questão de porque é que o título não foi, em vez disso, “Europe in Depression.” A resposta, presumivelmente, é que o autor – e o seu editor também – quiseram reconhecer que a depressão não era um fenómeno exclusivamente europeu e ainda que as ligações entre a Europa e os EUA também foram criticamente importantes.
3. O grande trabalho de Friedman sobre a Depressão em co-autoria com Anna Jacobson Schwartz (1963), era, do ponto de vista de Kindleberger, demasiado monocausal, centrado no papel da política monetária e também muito centrado nos Estados Unidos . Ver também Friedman (1953).
4. Kindleberger claramente reconhecia a sua grande dívida intelectual para com Minsky. Mas nós não somos os únicos ao sugerimos que a apresentação admiravelmente clara de Kindleberger do quadro das bases do seu trabalho e o sucesso com o qual ele se documentou bem aliado à sua capacidade em o aplicar à experiência histórica, deu-lhe ainda um bem maior impacto quer na Universidade quer para o público leitor em geral…
5. Uma exemplo do trabalho em Economia e mais particularmente sob o tema da coordenação das políticas a nível internacional inspirado por Kindleberger inclui Eichengreen (1987) e Hughes-Hallet, Mooslechner e Scheurz (2001). Três posições importantes sobre o seu trabalho relevante nas relações internacionais são Keohane (1984), Gilpin (1987) e Lake (1993).
6. A União Europeia foi criada, em certo sentido, precisamente para impedir a reconstituição da hegemonia alemã.
7. A verdade é que os EUA, por outro lado, possui um banco central disposto, sob certas circunstâncias, a reconhecer e a assumir a sua responsabilidade para agir como um refinanciador de último recurso. Nada impede de facto que o Federal Reserve, no quadro dos actuais acordos institucionais de querer , digamos, vir a comprar títulos dos países da Europa do Sul em extremas dificuldades. Mas isso poderia ser visto como peculiar e inadequado em muitos lados. O Fed tem já um razoável conjunto de outros problemas bem sérios. E intervir nos mercados europeus de obrigações soberanas, o argumento também iria aqui, e correctamente, levantar a questão da responsabilidade na liderança da autoridade monetária europeia .
This article originally appeared at VoxEU.
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Os seguintes excertos são passagens retiradas do livro “The World in Depression” de Charles Kindleberger
O Creditanstalt
Assim como em Maio de 1873 e em Julho de 1914, com uma tensão crescente entre a Alemanha a França e a Grã-Bretanha, o crash, quando apareceu, apareceu primeiramente na Áustria. No início da Primavera de 1931, um banco holandês escreveu uma polida carta ao Creditanstalt em Viena dizendo que era obrigado a levantar a carga dos seus aceites de crédito de 0,25% ao mês para 0.375%. Era uma carta temerosa, diz Beyen, não um aviso profético e o banco ficou até um pouco surpreso quando o Creditanstalt aceitou pagar o empréstimo, ao invés de o renovar a uma taxa mais elevada. Três meses mais tarde o Creditanstalt poderia ter usado esse dinheiro.
A economia austríaca tinha estado num caos desde o Tratado de St. Germain de 1920. As suas finanças tinham tido a necessidade da assistência financeira da Liga das Nações através de empréstimos o que implicou a supervisão internacional entre 1922 e 1926…O capital industrial foi consumido com a inflação do pós-guerra e o capital financeiro foi aplicado em fortes movimentos especulativos muito mal sucedidos contra o franco francês em 1924 o que gerou a falência do banco Allgemeine Industriebank, do banco Austro-Polnische Bank e do Austro-Orientbank, bem como do banco Union Bank possuído por Bosel, com graves dificuldades para Kolmer & co., Kettner e para Brothers Nowak. Maerz chama a este episódio de “o disparar de uma série de falências bancárias que culminaram na situação de ruptura do Creditanstalt, sete anos mais tarde.”…
Em Maio de 1931 as perdas ainda estavam em 140 milhões de xelins e o capital em 125 milhões mais as reservas divulgadas de 40 milhões num total de 165 milhões. Na base da lei austríaca se um banco perde metade de seu capital teria que resolver a situação das suas contas imediatamente ou então fechar, pura e simplesmente . Num enorme esforço para resgatar o Creditanstalt, o governo, o banco nacional e a House Rothschild, esta com a ajuda do ramo de Amsterdam, mobilizaram 100 milhões, 30 milhões e 22,5 milhões de xelins, respectivamente. Mas o anúncio da operação de apoio em 11 de Maio de 1931, desencadeou uma corrida bancária, parcialmente do exterior, parcialmente interna .
A 5 de Junho o crédito [para todo o país] estava esgotado e o Banco Nacional austríaco pediu outro crédito. Ainda sob pressão, o banco aumentou a sua taxa de desconto de 6% em 8 de Junho e para 7,5 por cento em 16 de Junho. O novo crédito foi organizado pelo Banco de Pagamentos Internacionais a 14 de Junho desse ano mas na condição de que o governo austríaco tem de obter um empréstimo a dois a três anos no exterior no montante de 150 milhões de xelins. Neste momento, os franceses interpuseram a condição de que o governo austríaco deve abandonar a União Aduaneira com a Alemanha. O governo austríaco recusou-se e caiu…
O desaparecimento do Creditanstalt e a queda do governo austríaco foi seguida por uma corrida aos bancos na Alemanha e por um ataque à libra sterling que nessa sequência se depreciou em 25% por cento. Depois, os bancos centrais iniciaram uma corrida contra o dólar americano contra a entrega de ouro . Os bancos incluíam o Banco de França, o Banco Nacional da Bélgica, o Banco da Holanda e o Banco Nacional suíço. O resultado foi uma necessidade imediata de aumentar a taxa de juros nos Estados Unidos de 1,5 para 3,5 por cento.
Estes eventos fizeram impulsionaram ainda mais o pânico já existente e uma corrida aos bancos nos Estados Unidos. Mais tarde, o dólar foi depreciado e foram decididos vários dias com os bancos fechados, bank hollidays, como forma de conter o pânico o. A economia dos EUA atingiu o seu pico máximo de depressão em Abril de 1933.
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[1] Nota dos autores e não do tradutor.
