POESIA AO AMANHECER – 169 – por Manuel Simões

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ANTÓNIO JOSÉ DA SILVA (O JUDEU)

(1705 – 1739)

SONETO

Essa que em cacos velhos se produz

manjerona misérrima sem flor;

esse pobre alecrim, que em seu ardor

todo se abrasa por sair à luz,

ainda que se vejam hoje a fluz

desbancar nas batalhas do amor,

cuido que elas o bolo hão-de repor;

se não, negro seja eu como um lapuz.

O malmequer, Senhores, isso sim,

que é flor que desengana, sem fazer

no verde da esperança amor sem fim.

Deixem correr o tempo, e quem viver

verá que a manjerona e o alecrim,

as plantas beijarão do malmequer.

(de “Guerras do Alecrim e Manjerona”)

O soneto faz parte da ópera joco-séria que se representou no Teatro do Bairro Alto de Lisboa, no Carnaval de 1737. Característica do teatro do Autor consistia na introdução de “intermezzi” poéticos destinados ao canto. Aqui, o soneto insere-se numa parte em que se satiriza a terminologia médica da escola moderna que encarecia a manjerona e o alecrim. O autor, como se sabe, foi vítima da Inquisição e queimado no auto-de-fé de Outubro de 1739.

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