Seleção e tradução de Francisco Tavares
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A “ruptura” da ordem internacional de Mark Carney é, na verdade, uma transição – mas em direção a quê?
Publicado por
, departamento de História da Universidade de Exeter (Inglaterra), em 25 de Março de 2026 (original aqui)

Em 20 de janeiro deste ano, o primeiro-ministro canadiano Mark Carney fez um discurso no Fórum Económico Mundial em Davos, no qual afirmou que “estamos no meio de uma ruptura. Não é uma transição”. Diz-se que este discurso “enviou ondas de choque através da comunidade internacional” segundo o jornalista Ezra Klein do New York Times. Carney foi indiscutivelmente o primeiro membro da aliança ocidental a reconhecer seriamente os problemas atuais com a hegemonia dos Estados Unidos na geopolítica atual. No entanto, o que Carney chama de ruptura é, sem dúvida, apenas o último estádio de uma transição maior para a qual os académicos vêm alertando durante pelo menos a última década [1].
Esta transição, argumentariam os académicos, está enraizada em fraquezas que existem há muito tempo na ordem geopolítica. Alguns destes problemas foram incorporados nos sistemas que surgiram no final da Segunda Guerra Mundial, e alguns fazem parte dos sistemas coloniais que construíram o mundo moderno. Por exemplo, o historiador Jamie Martin argumentou efetivamente em The Meddlers (2022) que os sistemas financeiros internacionais, como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, infringiram a soberania de muitos estados que requereram os seus serviços, e que isso está enraizado em abordagens que foram desenvolvidas no início do século XX. Os problemas com estes sistemas tornaram-se mais evidentes e exacerbados nas últimas décadas. Além disso, esta ordem geopolítica tornou-se cada vez mais disfuncional, e os problemas são muito mais amplos do que a crescente e perigosa hegemonia dos EUA que Carney descreveu em Davos.
No agora famoso discurso, Carney argumentou que “sabíamos que a história da ordem internacional baseada em regras era parcialmente falsa. Que os mais fortes se isentariam dela quando lhes fosse conveniente“. Ele afirmou que os estados têm avançado para garantir a sua segurança, à medida que a integração se torna uma ameaça crescente no período contemporâneo. Ele apelou às potências médias para agirem em conjunto para que juntos possamos construir uma ordem que seja mais uma vez baseada em valores, em vez de nos curvarmos à hegemonia dos EUA. Certamente, Carney promoveu novas relações transnacionais, desde o discurso de Davos, com as potências europeias, a China, e agora a Índia. No entanto, o seu curto período como Primeiro-Ministro canadiano também foi marcado por ignorar rupturas com o direito internacional por parte dos EUA. Por vezes, até as apoiou activamente.
Desde que assumiu o cargo em 14 de Março de 2025, a política externa de Carney parece bastante em desacordo com a ordem baseada em valores das potências médias que ele propôs. Ele, em particular, tem-se mantido em silêncio sobre as ações imperiais dos EUA, e mesmo às vezes apoiado. O seu governo não disse nada enquanto os EUA bombardeavam lanchas em águas internacionais. Quando os EUA sequestraram o presidente da Venezuela, Carney chamou a isso “boas notícias” em 6 de janeiro de 2026, numa roda de imprensa em Paris. Carney ficou novamente em silêncio quando os Estados Unidos sancionaram um juiz canadiano do Tribunal Penal Internacional por causa de uma investigação sobre a guerra de Israel contra Gaza. Mais recentemente, ele ofereceu apoio canadiano ao ataque dos EUA ao Irão. No entanto, a sua ministra dos Negócios Estrangeiros, Anita Anaud, disse desde então que o Canadá “não participará na guerra.”
Comentadores, incluindo alguns académicos, muitas vezes cometem o erro de se concentrarem em Donald Trump e em Carney, como sendo os poderosos líderes nacionais que conduzem a geopolítica. No entanto, como historiadores do mundo global e imperial devemos estar cientes de que as forças da geopolítica não mudam de direção da noite para o dia e eventos que parecem rupturas, muitas vezes demoram décadas a produzir-se. Tais ocorrências avançam devido às estruturas sempre em mudança da globalização e às mudanças das relações locais e globais, que são, muitas vezes, impulsionadas pela evolução tecnológica. Há muitas transições mais pequenas que levam a uma mudança verdadeiramente global.
A geopolítica está agora na era das grandes tecnológicas e num alinhamento entre a “broligarquia” [n.t. estrutura de poder dominada por um pequeno grupo de homens ricos e poderosos do sector tecnológico] e os gastos com a defesa. A jornalista do New York Times, Sheera Fenkel, argumentou que houve uma “militarização do Vale do Silício“. Da mesma forma, observadores da Universidade Brown e da Universidade de Toronto documentaram as ligações em expansão entre o Vale do Silício e o complexo industrial militar americano. Também é digno de nota que funcionários do Google e da OpenAI assinaram petições contra o uso militar da IA. A OpenAI assinou um contrato com o Pentágono do qual a Anthropic se afastou, citando preocupações éticas em relação ao uso da sua tecnologia para vigilância em massa e para sistemas de armas que matam pessoas sem intervenção humana.
No que diz respeito à infra-estrutura para a globalização, as empresas de tecnologia de hoje são indiscutivelmente muito mais impactantes do que os navios a vapor, os telégrafos, as tipografias e o Canal de Suez que historicamente permitiram o imperialismo e a globalização. A tecnologia no século XXI desloca a informação e os produtos digitais mais e mais rapidamente, em milissegundos em todo o mundo. Isto foi notado por aqueles que procuram controlar o nosso comportamento. A guerra mudou à medida que os nossos dados são agora vendidos ao maior lance que procura influenciar os resultados das eleições, tal como acontece com a Cambridge Analytica. Elon Musk foi citado nos e-mails recentemente divulgados de Epstein dizendo que o Brexit era “apenas o começo.”
Por acaso ouviram Carney falar sobre interferência eleitoral, regulamentação das redes sociais ou os perigos da Inteligência Artificial em Davos, à medida que aumenta os gastos com defesa no Canadá? Nomeadamente, o seu Ministro da Inteligência Artificial e Inovação Digital, Evan Solomon, reuniu-se com Israel. A guerra de Israel contra Gaza foi ativamente apoiada por grandes empresas de tecnologia sediadas nos EUA. Carney também cancelou a implementação de um imposto canadiano sobre serviços digitais, a pedido de empresas de tecnologia que pressionavam o governo Trump.
As ligações entre as grandes tecnologias, os oligarcas e o fascismo transnacional em expansão são cada vez mais evidentes. Depois de comprar o Twitter antes da última eleição presidencial americana e apoiar abertamente Donald Trump, Musk mudou os algoritmos de formas que apoiavam a política de direita. Ele não comprou o Twitter para ganhar dinheiro com o Twitter. Musk comprou-o para ganhar poder com a oligarquia que impulsiona a política americana e, finalmente, ganhou mais dinheiro com a vitória de Trump através dos seus interesses comerciais.
Musk é melhor compreendido como um empreiteiro da área da defesa, dependendo dos contratos e subsídios do governo americano. Ele liderou o Departamento de Eficiência Governamental dos EUA (DOGE) e recrutou trabalhadores do Vale do Silício para trabalharem no departamento. Foram levantadas preocupações sobre a transmissão de dados pessoais do governo para o sector privado. O DOGE também supervisionou o desmantelamento da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), que apoiava a eliminação da pobreza e das doenças em todo o mundo. Isso representou uma mudança significativa na política externa americana.
Desfazer essas mudanças globais exigiria muito mais do que um discurso em Davos ou até mais do que novos acordos entre potências médias. Houve uma mudança económica fundamental durante as últimas cinco décadas que facilitou o surgimento desta oligarquia transnacional e Carney, um economista formado em Oxford, não está a falar em desfazer essas mudanças. Ele está a falar de viver com elas, através do “realismo pragmático“, que persegue tudo o que funcionar no momento. Não é o mesmo que buscar uma ordem internacional baseada em valores. No entanto, historiadores e líderes mundiais sabem há muito tempo a importância de garantir a economia mundial (2013) para alcançar a estabilidade na geopolítica. Quando não conseguimos alcançar a estabilidade económica no século XX, seguiu-se a instabilidade geopolítica.
Em vez de ver Trump, Carney e Musk como homens que fazem eventos que mudam o curso da história, o ambiente geopolítico atual é mais precisamente visto como impulsionado por uma teia de atores poderosos em todas as nações que estão ligados à ordem existente. Estes homens estão dentro dessas redes, com pouco poder para mudá-las se quiserem continuar a manter o poder. O banqueiro central que facilitou o Brexit não é mais provável que seja o nosso salvador da ordem internacional baseada em regras do que um magnata imobiliário e estrela de televisão de Manhattan.
Na Universidade McMaster, em Ontário, Canadá, em 2017, o economista político Mark Blyth discutiu o surgimento do que chamou de “Trumpismo Global“. Ele argumentou que os sistemas financeiros são como computadores. Eles trabalham durante aproximadamente 30 anos, defendeu Blyth, momento em que se deve substituir o hardware. O sistema criado no final da Segunda Guerra Mundial funcionou até à década de 1970, quando a estagflação impulsionava a necessidade de mudança. As políticas implementadas no início dos anos 1970 levaram a uma expansão do neoliberalismo que continua a atormentar-nos hoje. Essa ordem mundial neoliberal estava a mostrar a sua idade em 2008, argumentou Blyth. Naquela época, os sistemas financeiros globais precisavam de uma mudança no hardware que não foi fornecida.
A crise financeira de 2008 estimulou o início do movimento Occupy Wall Street, quando os governos “resgataram Wall Street em vez do homem comum”. Blyth argumenta que em 2016 o mundo estava “a acordar para 30 anos de problemas armazenados” porque não havia lidado com os problemas económicos e políticos causados pela mudança para o neoliberalismo, a começar pelo movimento de Nixon para fora do padrão-ouro. A polarização política e a mudança para a direita, em muitas nações, foram uma resposta ao fracasso dos salários em acompanharem o custo de vida desde a década de 1970. Isso permitiu o surgimento de políticos de extrema-direita como Trump, mas também de políticos de esquerda como Bernie Saunders. Centristas como Hillary Clinton não sobreviveriam neste ambiente, e certamente vimos muitos deles [centristas] caírem em todo o mundo desde 2016. À medida que o fascismo prospera numa era de desespero e instabilidade, ele estava agora a levantar cabeça de novo.
Em 2016, as empresas de tecnologia estavam a explorar os nossos dados para efeitos de interferência eleitoral, em apoio a Trump e à campanha do Leave [Brexit]. Conceitos como “pós-verdade” e “factos alternativos” apareceram sendo dada pouca atenção à realidade de que se tratava de abordagens anti-iluministas. Em retrospectiva, estas palavras foram concebidas para destruir os progressos realizados em meados do século XVII. O Iluminismo levou o mundo às revoluções francesa, americana e Hattiana e às várias lutas pelos direitos humanos que se seguiram. Por mais defeituosas que fossem essas mudanças, colocaram a humanidade no caminho para estabelecer o que conhecemos como democracia liberal. Pós-2016, conceitos como eleições livres, imprensa livre, liberdade de expressão, separação de poderes e estado de direito estão em questão sobre se proporcionam um bem público e são rebatizados como o problema por aqueles que detestam o controlo do seu poder. É suposto que fiquemos confundidos sobre qual lado quer essas coisas, já que Musk afirmou comprar o Twitter para preservar a liberdade de expressão.
As soluções necessárias neste momento são muito maiores do que qualquer coisa que Carney esteja a reconhecer. No The Atlantic, em junho de 2025, Blyth argumentou que: “a economia global está a receber uma reforma de hardware e a experimentar um novo sistema operacional – na verdade, uma reinicialização completa, como não vimos em quase um século”. Ele sustentou que:” as ideias de governo sobre a economia estão em fluxo. Temos de decidir como é a nova ordem económica e a que interesses servirá”. Não há garantia de que serão os [interesses] dos trabalhadores ou mesmo das classes médias. Os eleitores estão agora a ser alvo de manipulação dos resultados eleitorais no que é essencialmente uma guerra de classes transnacional. É improvável que o que aconteça a seguir beneficie qualquer um, exceto os oligarcas que controlam os algoritmos – e não ouço Carney apelando para resolver esta situação.
Em 2020, Steven Levitsky e Lucian Way cunharam o termo “autoritarismo competitivo” para descrever países com instituições democráticas aparentemente fortes, mas com falta de opções democráticas. Nesse sistema, os eleitores escolhem entre uma variedade de actores corruptos, enquanto as instituições da democracia parecem ainda estar vivas. Seria um erro pensar que esta é apenas uma questão dos EUA ou impulsionada apenas por Trump. Outros espaços onde o autoritarismo competitivo tem vindo a aumentar incluem a Turquia, a Hungria, a Índia e as Filipinas. O livro How Democracies Die [Como morrem as democracias] argumentou já em 2018 que os EUA. já haviam passado alguns importantes portais no caminho para o autoritarismo. As ideias de extrema-direita têm vindo a entrar na política canadiana, à medida que Carney realinha as políticas do sistema partidário canadiano. Os canadianos, como muitos eleitores em todo o mundo, agora enfrentam uma escolha entre direita e mais direita.
Em 2024, a jornalista Anne Applebaum publicou Autocracy Inc. onde argumenta que os estados autocráticos estão agora a trabalhar juntos, com cleptocratas cooperando através de linhas internacionais. Esta é a infra-estrutura global anti-democrática do projeto. Durante a primeira administração Trump em 2018, o operacional republicano Steve Bannon discutiu a necessidade de um grande supergrupo europeu de direita. Ele falou em termos do voto no Brexit e a eleição de Trump como o presidente dos EUA, em 2016 como o início deste projecto.
O papel mais amplo dos EUA na construção de um sistema global de lavagem de dinheiro foi descrito por Casey Michael em American Cleptocracy (2021), que demonstrou a extensão da infiltração dos sistemas financeiros americanos em regimes corruptos em todo o mundo. Em Offshore: Stealth Wealth and The New Colonialism (2025) Brooke Harrington explicou como funciona o sistema de paraísos fiscais e afirma que o sistema beneficia os oligarcas numa base transnacional, em vez de uma nação. Estes sistemas não foram construídos da noite para o dia, mas estão a determinar que tipo de futuro podemos ter, uma vez que os oligarcas trabalham em conjunto transnacionalmente para se enriquecerem, à custas do resto de nós.
Carney trabalhou durante muito tempo dentro desses sistemas transnacionais, e ele é mais uma parte deles. Ele não é uma fonte de iluminação, mesmo que ele se cubra (mal) com a linguagem de eruditos. Afinal, se você queria destruir as universidades canadianas, você faria exatamente o que Carney está a fazer, como ele se gabava no seu discurso em Davos sobre a educada força de trabalho canadiana. Em casa, ele envolve-se em grandes aumentos nos gastos com a defesa, cortes de serviços públicos, o nacionalismo, corporativismo, e a construção de uma maioria através de deserções políticas, ao invés de pelas urnas. Carney, no entanto, tem razão sobre uma coisa. A velha ordem não volta.
Está por ver que tipo de sistema que emerge a seguir, mas não está a parecer óptimo para a democracia e o esclarecimento neste momento. Se o mundo deseja preservar esses princípios, é necessário mais do que um desafio realista pragmático à hegemonia geopolítica dos EUA, como proposto por Carney. De muitas maneiras, o discurso de Carney foi uma simplificação massiva, cheia de banalidades que soavam como enfrentar Donald Trump. No entanto, até à data, Carney não demonstrou uma verdadeira vontade de lidar com a questão de como garantir a economia global para a estabilidade política. Até que ele esteja disposto a levar a sério a garantia de que esta atualização de hardware serve a classe trabalhadora e média, e defender uma verdadeira ordem internacional baseada em valores, o discurso de Davos não deve ser visto como um apelo credível à ação.
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[1] Steve Livitsky e Daniel Zablatt, Como as Democracias Morrem, New York, NY: Coroa, 2018; Thomas Piketty, de Capital no Século xxi (Arthur Goldhammer trans.), (Cambridge: Harvard University Press, 2014), Marci Shore, o sabor das cinzas: a vida após a morte do totalitarismo na Europa Oriental, (Nova York: NY: Crown, 2014); Timothy Snyder, o caminho para a falta de liberdade: Rússia, Europa e Ásia, (Nova York, NY: Crown, 2019); Jason Stanley, como funciona o fascismo: a Política de nós e eles, (Nova York, NY: Random House, 2018); e Adam Tooze, Crashed: como uma década de crise financeira mudou o mundo (New York, NY: Viking, 2018).
A autora: Lori Lee Oates é Professora Assistente no departamento de Sociologia e Criminologia da Memorial University em St.John’s Canada, onde também é coordenadora de projetos do projeto Cursed: How the Resource Curse Manifests in Newfoundland and Labrador, financiado pelo SSHRC Insight Development Grant. A investigação e o ensino de Lori Lee centram-se nas intersecções entre o colonialismo, o desenvolvimento de recursos e a economia política.


