Castelao (VI) – por António Gomes Marques

peninsula_sempre-galiza

 

 

(continuação de Castelão V)

 

 

Praticamente, só o PCE e a União Social apoiavam o governo Negrín, o qual controlava as forças republicanas refugiadas em França. Em Novembro de 1943, é criada a Junta Española de Liberación (JEL) no México, que se propunha como alternativa ao governo de Negrín, juntando o PSOE e alguns partidos republicanos e catalanistas. Os comunistas e os anarquistas não foram convidados; o Partido Nacionalista Basco (PNV) recusou assistir.

Em 1946, a 8 de Fevereiro, como já se referiu, instala-se em Paris o Governo Republicano no exílio de José Giral Pereira, que havia substituído Juan Negrín López, com Castelao como um dos seus Ministros. As Cortes exiladas, nas suas reuniões de 7 a 9 de Novembro de 1945, deram o seu voto de confiança a este governo de José Giral.

Interessante seria recordar um pouco as muitas dissidências que continuaram no exílio entre os que pretendiam o derrube de Franco, mas o nosso objectivo é falar de Castelao e é o momento de completar esta pequena biografia do nosso autor galego, pois foi apenas esse o nosso objectivo quando iniciámos este escrito. No entanto, sentimos que devemos referir que o governo de José Giral, em Paris, foi o que reuniu um conjunto maior de forças, incluindo o PCE de Santiago Carrillo, os republicanos conservadores, representados por Rafael Sánchez-Guerra, e o nosso galeguista Castelao, mas isso não significa que se possa dizer que havia uma unidade republicana. Mas só após as eleições de 15 de Junho de 1977 os representantes eleitos dos republicanos no exílio emitiram, em Paris, no dia 21 de Junho de 1977, o documento histórico designado «Declaração da Presidência e do Governo da República Espanhola no exílio», que termina deste modo:

“As Instituições da República no exílio põem assim término à missão histórica que se tinham imposto. E os que as mantiveram até hoje, sentem-se satisfeitos porque têm a convicção de ter cumprido com o seu dever.”

Mas voltemos a Castelao.

Por causa das divergências com os socialistas de Indalecio Prieto, o governo de José Giral demite-se. Com a consequente dissolução do governo e a natural desilusão de Castelao, este decide regressar a Buenos Aires em Julho de 1947. Esta desilusão de Castelao é maior pelas dissidências entre os exilados, incluindo as divergências no seu Partido Galeguista.

Em 15 de Março de 1947, ainda em Paris, Castelao dá nota escrita da sua explicação da crise do governo Giral, nota esta que só viria a ser publicada em 1992: «Quando me incorporei no Governo Giral, como Ministro Galego, já estava latejando a crise promovida pela doença anglo-priestista. O Presidente Giral foi-na detendo com paciência exemplar e não poucas concessões, chegando a pedir “por favor” que não se desatasse a discórdia, …» (v. Obras de Castelao-3, pág. 439)

 

O cruzeiro mais antigo da Galiza, em Melide
O cruzeiro mais antigo da Galiza, em Melide

Na Argentina, retomou a sua actividade política, sendo de destacar o seu discurso de 1948, no Dia da Pátria, «Alba de groria».

No início de 1949 é-lhe diagnosticado um cancro no pulmão, embora os médicos se tenham limitado a dizer-lhe que ele tinha um processo infeccioso no pulmão ¾inclusivamente ocultando a gravidade da situação à sua mulher¾, como se comprova pelas justificações que dá para não estar presente em vários actos para que era solicitado.

Dedica-se à preparação da edição de «As cruces de pedra na Galiza», cuja impressão completa não chega a ver. As dores atormentam-no e os médicos decidem submetê-lo a uma lobotomia pré-frontal. Internam-no no Sanatório do Centro Galego de Buenos Aires a 2 de Janeiro de 1950, falecendo dias depois, a 7 de Janeiro.

O seu corpo foi embalsamado de modo a que o seu desejo de regressar à sua Galiza pudesse um dia cumprir-se, realizando-se o seu funeral no dia 9 de Janeiro para o Panteão do Centro Galego de Buenos Aires, no cemitério de Chacarita, com a presença de grande número de habitantes de Buenos Aires e de exilados galegos que enmcheram as ruas da capital argentina numa demonstração de grande afecto por Castelao.

A Direcção-Geral de Imprensa, da Espanha fascista de Franco, emite uma nota onde determina o tratamento a dar à notícia da sua morte:

«Tendo falecido em Buenos Aires o político republicano e separatista galego Alfonso Rodríguez Castelao avisa-se do seguinte: A notícia da sua morte dar-se-á em páginas interiores e a uma coluna. No caso de se inserir fotografia, esta não deverá ser de nenhum acto político. Elogiar-se-ão unicamente do falecido as suas características de humorista, literato e caricaturista. Poder-se-á destacar a sua personalidade política, sempre e quando se mencione que aquela foi errada e que se espera da misericórdia de Deus o perdão dos seus pecados. Da sua actividade literária e artística não se fará menção alguma do livro “Sempre en Galiza” nem dos álbuns de desenhos da guerra civil. Qualquer omissão destas instruções dará lugar ao correspondente processo.»

 

 

(continua)

2 Comments

  1. Muito obrigado, António, pelo excelente percurso biográfico do nosso vulto fulcral para a nossa nacionalidade (seria bom talvez recolher todas as seções numa só ligação, para assim poder recomendar a colegas a sua mais fácil leitura);

    há uma moderna edição do seu “Sempre em Galiza” do professor F.V. Corredoira (http://www.atraves-editora.com/sempre-em-galiza-4/), feita da perspetiva reintegracionista mas com critérios de consenso entre forças políticas nacionalistas galegas que ainda não se atrevem a realmente considerar a nossa língua como nacional e transnacional;

    as outras forças políticas galegas, as que realmente devemos considerar espanholistas, são as que hoje detêm o poder na nossa Terra, os descendentes daqueles fascistas que apoiaram o golpe de Estado de Franco e a lateres, para os quais Castelão continua a ser isso que dizia Madri quando ele morreu: um humorista galego, até engraçado nas suas “Cousas” (http://www.google.co.uk/search?q=Cousas+de+Castelao&hl=en&client=safari&rls=en&tbm=isch&tbo=u&source=univ&sa=X&ei=GCpXUbfMMNLJ0AXR1oHYAw&ved=0CEoQsAQ&biw=1280&bih=870);

    uma aperta do N da Raia!

Leave a Reply