POESIA AO AMANHECER – 170 – por Manuel Simões

poesiaamanhecer

LEONOR DE ALMEIDA, MARQUESA DE ALORNA

(1750 – 1839)

SONETO

Tu, Deus tutelar da solidão,

amável sombra, oh melancolia,

aproxima-te, rouba-me a alegria

que turba a suavidade ao coração.

Não prives o meu peito, Ninfa, não,

da tua triste e doce companhia,

que suspira por ti um e outro dia

quem de amar-te só faz consolação.

E não pode a que vive suspirante

viver entre o tumulto muito espaço,

sem que faça o seu mal mais penetrante.

Atende, oh Ninfa, o rogo que te faço:

não demores mais tempo o doce instante,

os dias tristes, que eu tão triste passo.

(De “Sonetos e Poesias Várias”)

O soneto foi escrito no convento de Chelas, onde foi educada desde os 8 anos, enquanto o pai, à ordem de Pombal, cumpria pena de prisão. Os seus salões de S. Domingos de Benfica foram frequentados durante as lutas civis e mesmo depois da vitória liberal, por literatos de gerações diferentes, desde os últimos árcades (ela própria assinou com o pseudónimo arcádico de Alcipe) até aos primeiros românticos.

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