Ontem abordámos o culto que se gerou em torno da figura de Fernando Pessoa e o elevado preço que. num leilão em Lisboa, atingiram uma secretária e uma máquina de escrever que o poeta usou. E contámos como essa elevada licitação estava relacionada com um livro. Outro livro nos leva a que continuemos hoje com Pessoa – mais propriamente, com a sua correspondência com Armando Cortes Rodrigues,
Do livro “Cartas de autores portugueses”, editado pelos Correios e Telecomunicações de Lisboa, coligidas por José Ribeiro da
Fonte, podemos apreciar extractos de cartas de grandes autores portugueses, divididos em: A Carta, Do amor, Da viagem, Da política, Da vida e do mundo e Da arte e do artista.
Aí encontrei algumas de Fernando Pessoa para Armando Côrtes-Rodrigues. Por também ter em minha posse uma carta deste último (para minha mãe Maria Cecília Correia) onde fala sobre a forma como conheceu Fernando Pessoa, achei interessante partilhar estas passagens.
Irmão em Além!
Eu vos saúdo e vos peço que amanhã, entre o soar duplo das duas e o soar simples das duas e mais metade de uma hora, surjais com a vossa apresença carnal – sem prolongamento gesticulante de bengala agressiva – à vil cova ou jazigo de utilidades e propósitos que dá pelo nome de “Brasileira do Rossio”. Da vossa tese vos falarei, insciente ainda se então pronta, mas pronta de certo, se não a essa, ora marcada, hora, ao cair lento e morno do crepúsculo de amanhã. Não vos aflijais ! Os deuses têm tempo para tudo. E no dia 30 entregareis a vossa tese se antes o Destino a não dactilografar antes. Guarde-nos Deus; e que a futura Divindade Tutelar das Estranhezas irritantes vos assente à sua mão direita.
Fernando Pessoa.
Meu caro Côrtes-Rodrigues
Felizmente para mim tenho tido bastante que fazer. Sobra-me tempo apenas, portanto, para estas linhas. Escrevo-lhe para lhe dizer que lhe não posso escrever: é mais um paradoxo do
Muito e sempre seu
Fernando Pessoa
19-9-1915
Lisboa, 19 de Janeiro de 1915
Meu querido Amigo:
(…) “Eu ando há muito tempo – desde que lhe prometi esta carta – com vontade de lhe falar intimamente e fraternalmente do meu “caso”, da natureza da crise psíquica que há tempos venho atravessando. Apesar da minha reserva, eu sinto a necessidade de falar nisto a alguém, e não pode ser a outro senão a você – isto porque só você, de entre todos quantos eu conheço, possui de mim uma noção precisamente ao nível da minha realidade espiritual. Dá-se esta sua capacidade para me compreender porque você é, como eu, fundamentalmente um espírito religioso; e, dos que de perto literariamente me cercam, você sabe bem que (por superiores que sejam como artistas) como almas, propriamente, não contam, não tendo nenhum deles a consciência (que em mim é quotidiana) da terrível importância da Vida, essa consciência que nos impossibilita de fazer arte meramente pela arte, e sem a consciência de um dever a cumprir para com nós próprios e para com a humanidade.” (…)
Fernando Pessoa
Armando Côrtes-Rodrigues – 15 Janeiro de 1949


Reblogged this on Das Culturas.