FILIPA DE LENCASTRE – por Fernando Correia da Silva

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O inglês John Gaunt, duque de Lancaster (os portugueses dizem e escrevem Lencastre…) é pretendente ao trono de Castela em virtude do seu casamento com Constança,Imagem1 filha de Pedro-o-Cruel. Já conquistou todo o norte da Galiza e agora muito lhe convém uma aliança com D. JOÃO I, Mestre de Avis, pois este, para garantir a independência de Portugal, está sempre em guerra contra os castelhanos. E a aliança, porque interessa a uma e outra parte, é assinada em 1386 e reforçada em 1387 através de um casamento político: John Gaunt dá a mão da sua primogénita D. Filipa de Lencastre a D. JOÃO I. O casamento realiza-se na Sé do Porto, a 2 de Fevereiro.

 Em 14 anos, de 1388 a 1402, D. Filipa dá à luz oito filhos: D. Branca, D. Afonso, D. Duarte, D. Pedro, D. Henrique, D. Isabel, D. João e D. Fernando. A primeira, D. Branca, morre com oito meses de idade. O segundo, D. Afonso, com dez anos. O sucessor ao trono será pois D. Duarte.

 Apesar de fatigada com as sucessivas maternidades, D. Filipa impõe um estilo novo à Corte de D. JOÃO I: decoro e animação cultural. São banidas as atitudes desabusadas, vingam as que passam a ser chamadas de corteses. Vinga também a apetência pelas belas-letras. Os Infantes, todos eles, nasceram bem dotados e sendo a Corte uma espécie de Academia fundada por D. Filipa, natural é que D. Duarte, D. Pedro e D. João venham a ser autores de obras de moral, doutrina e política e D. Henrique, o soturno, aprenda a decifrar cartas de marear. Deles dirá Camões: “ínclita (ilustre) geração, altos infantes.”

 Nem só com os filhos se preocupa D. Filipa. Protege as damas e criadas do Paço, para todas pretende arranjar – e arranja! – bons casamentos.

 É também prudente conselheira do seu marido. Quando do grande cisma do Ocidente insiste que ele se mantenha fiel ao Papa verdadeiro, o de Roma, porquanto falso e herege será o de Avinhão. É dama piedosa que segue prazerosamente a liturgia católica. O que não a impede de também apreciar a destreza de cavalgatas e torneios, ainda as canções de escárnio e maldizer.

 Junto de El-Rei, D. Filipa apoia com entusiasmo o seu projeto de, no norte de África, conquistar Ceuta aos mouros. Será esse o início da expansão ultramarina portuguesa.

 Em 1415, em Sacavém, D. Filipa é mordida pela peste. Moribunda, mas lúcida, a rainha chama para junto do seu leito os filhos Duarte, Pedro e Henrique. Ordena que aos três sejam entregues as espadas que mandara forjar para quando fossem armados cavaleiros. Pede-lhes que jurem votos de proteção. A D. Duarte, futuro rei, a proteção dos povos. A D. Henrique, a proteção dos nobres. A D. Pedro, a proteção de damas e donzelas; ou seja, a proteção dos fracos. Acha a rainha que havendo bons protetores para todas as classes de homens, será possível manter no Reino a paz que Deus manda.

 Lúcida rainha… Porém apontar nem sempre é acertar.


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