Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
O Liberalismo económico terá dado origem a Hitler?
TRÉMAREC, LE LIBÉRALISME ÉCONOMIQUE A-T-IL ENFANTÉ HITLER? TEXTO DISPONÍVEL EM L’ESPOIR, CUJO ENDEREÇO ELECTRÓNICO É O SEGUINTE:
HTTP://LESPOIR.JIMDO.COM/2011/10/31/LE-LIB%C3%A9RALISME-%C3%A9CONOMIQUE-A-T-IL-ENFANT%C3%A9-HITLER/
Parte III
(CONTINUAÇÃO)
……
Porque é que foi aplicada esta política?
A sobre-avaliação do marco
Durante a crise, a manutenção da paridade ouro do marco terá estrangulado a economia alemã. Enquanto que os seus concorrentes e clientes desvalorizam a sua moeda (Suécia, Dinamarca, Noruega, Reino Unido, Hungria, Canadá, Irlanda, Checoslováquia, Bulgária… em 1931), Brüning insistia numa política de valor alto para o marco, reduzindo-se assim as exportações alemãs em proporções enormes. Paradoxo, quando Halmaj Schacht, se tornou Ministro das Finanças de Hitler, aplicará uma política drástica de controle cambial em 1934, equivalente a uma desvalorização de 20% do marco e ao mesmo tempo mesmo que a Alemanha reduzia brutalmente as suas importações daí que o nível das exportações tenha subido um pouco relativamente ao período 29-32, enquanto este mesmo nível descia em França e nos Estados Unidos. Pelo desejo de manter um marco forte Bruning condenou-se a uma política de deflação que teve um efeito fortemente depressivo sobre o crescimento económico alemão.
A questão das reparações
As reparações, os montantes a reembolsar-se a favor da França na base do estipulado pelo Tratado de Versalhes, não eram em si mesmas sufocantes. Na sequência da crise do início da década de 1920, o plano Young tinha repartido o seu reembolso até 1988, e a soma em questão representava anualmente ” 3% ” do PIB alemão. Portanto, o reembolso, para além de considerações de ordem políticas, era sustentável. Na verdade o papel negativo exercido pelas Reparações foi o de impedir, pela dívida que representava, uma desvalorização do marco, [dado o efeito que esta desvalorização teria sobre a dívida em moeda nacional ]. De toda a maneira politizava a questão da moeda alemã, que deveria ter sido sujeita a um ajustamento. Nestas condições, esta dívida não poderia ser reembolsada normalmente e finalmente não foi sequer paga pela Alemanha.
A ideologia económica
Toda a teoria económica da época, inspirada pelos economistas neoclássicos, tendia a justificar a acção de Bruning. Só o marxismo, mas num quadro que foi não era o quadro institucional da democracia, poderia representar uma alternativa e foi por isso que todo o conjunto de países na Europa enfrentaram a crise aplicando mais ou menos os mesmos princípios e segundo os quais o desemprego só poderia ser a expressão de um desequilíbrio momentâneo enquanto que a moeda era um véu sem qualquer papel económico e deveria permanecer estável e, ao mesmo tempo, em que se defendia que só as forças naturais do ajustamento do mercado levariam ao retorno da expansão. Keynes, Lautenbach, compreenderam nesta altura quais os pontos fracos desta teoria, mas não lhes pertencia infelizmente difundir os seus pontos de vista antes e até que graves crises políticas venham persuadir os políticos da lucidez intrínseca das posições defendidas por estes dois autores. Tal como hoje, também aqui se levanta a questão da origem de um pensamento dominante falso. Nós não podemos fugir à responsabilidade dos ricos para quem os seus economistas têm tido a função de justificar teórica e praticamente os seus interesses
Talvez por isso se construam estas ilusões colectivas que a história parece recriar periodicamente.
Militantes comunistas do KPD
O impasse social-democrata
O SPD, pelo seu apoio implícito das políticas de Bruning, pela sua recusa de combater ferozmente contra a miséria social, ainda que sem a união com o KPD, na verdade, pelo seu apoio à política de deflação seguida, condenara-se a não ser outra coisa na crise que não fosse a de ser um actor de teatro. Certamente, os apelos a lutar contra a ascensão do terceiro Reich mostram uma certa lucidez contra Hitler, pela defesa da República que eles tinham criado e que era sincera e corajosa, mas a sua falta de solução económica só poderia levar ao desastre. Defender um modelo político, mesmo uma República social, só tem sentido se apoiado num programa económico sério e alternativo, portanto. Além do mais, segundo partido do país, fundadores da República, a eles incumbia-lhes de alguma forma defender a política de relançamento económico ou dos grandes estímulos que Schleicher não pode aplicar por falta de apoio e de estrutura políticas para a levar a cabo. A responsabilidade dos sociais-democratas é pois muito pesada.
A ameaça comunista
O KPD, quanto a ele, opõe-se à política económica da Bruning e luta no campo social. Mas, infiltrado por Estaline, privado das figuras tutelares de Karl Liebknecht e de Rosa Luxemburgo, assassinados pela revolução social-democrata em 1919, eles estão errados claramente quanto ao seu inimigo ao assimilarem o SPD a Bruning e a Hitler, como sendo tudo o mesmo. Isto ir-lhes-á sair bem caro e serão depois exterminados após a sua tomada de poder por este último. Pode-se perguntar se a sua vitória, [a dos comunistas,] teria sido um bem para a Alemanha e para o mundo, tanto quanto a ditadura de Estaline não foi benéfica para a URSS, nem de um ponto de vista económico, nem de muitos outros.

