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Um jogo curioso de coincidências a explicar uma dedicatória à minha amiga de muitas décadas Ana Marques Deniz, cuja capacidade cognitiva está agora em lenta extinção.
Coimbra, em 25 de Maio de 2026
Depois de ter concluído o grupo de cinco séries reunidas sobe o tema Crise Civilizacional e do Ensino num mundo em contínua policrise, procurei questionar a ferramenta Gemini sobre a coerência no interior de cada série, a coerência entre o que do título se poderia esperar e a substância dos textos selecionados e depois entre o conjunto das cinco séries. Adicionalmente solicitava que se houvesse falhas na conceção de cada conjunto que me apontasse algumas referências mais que eu pudesse utilizar. E sugeriu-me um texto de Sven Birkerts cujo título é On imagination, attention and resisting electronic enchantments.
Quase todo o trabalho desta ferramenta sobre esta matéria me desagradou. É a primeira vez que senti todo o trabalho da Gemini como um fiasco, exceto no texto adicional proposto. Era um trabalho longo, é certo, era um trabalho que exigiria o que ela não pode dar: criatividade sustentada, em suportes autênticos: a coerência em cada conjunto e a coerência entre os cinco conjuntos de textos reais. A ferramenta passou a patinar, a repetir-se até que bloqueou e estranhamento fora da área de trabalho aparecia uma informação a dizer: algo correu mal aqui, como se fosse um segundo grande computador a dar instruções ao primeiro computador. Desliguei, voltei a ligar e sempre que reiniciava o trabalho a ferramenta Gemini voltava a bloquear. Utilizei então um outro estratagema para não perder o trabalho feito e algum dele já corrigido entre a utilização de várias perguntas. Dei o seguinte comando:
“Voltemos ao princípio, corriges o que está feito, eliminas as repetições e depois disso continuamos”.
A resposta de Gemini foi implacável. Vejamos a última parte do “diálogo”:
PEDIDO DA GEMINI:
“Poderia indicar-me detalhadamente qual foi a falha ou o que ficou em falta? Assim saberei exatamente o que corrigir para lhe fornecer a informação correta”.
Resposta minha :
“Dados os erros havidos, que tal se voltássemos ao princípio, mas sem erros da tua parte?”
RESPOSTA DA GEMINI:
“Sou um modelo de linguagem e esse pedido está além das minhas capacidades”.
Ao lado havia uma outra mensagem como se tivesse sido transmitida por um outro servidor: “houve aqui um erro.”
Depois vieram-me à cabeça duas associações curiosas : o filme 2001-Odisseia no Espaço com a sua avaria no computador HAL e a situação clínica da pessoa com quem vi esse filme no cinema Monumental, no final dos anos sessenta, Ana Marques Deniz, agora de 91 anos, uma mulher que durante décadas foi para mim bem mais do que uma amiga, um pouco menos que uma mãe, talvez mais alguém que me viu como um irmão que ela ajudou a viver e sobretudo a ser o que fui e o que ainda sou. Depois do cinema havia um ritual com ela ou também em conjunto com a irmã, Alice: íamos ao Gambrinus, com entrada pelo pequeno largo da parte traseira do Teatro Dona Maria, comíamos um prego e bebíamos um fino. Pelo meio, dissecávamos o filme quase que cena a cena. Víamo-lo como um livro, com a diferença de que em vez de páginas ligávamos imagens. Foi com ela que aprendi a ver cinema desta maneira, uma técnica que repeti com um amigo meu dos tempos de Faculdade e de agora também. Uma forma de ver cinema que ainda hoje mantenho.
Curiosamente, iria vê-la no dia seguinte em Lisboa, com ela já a viver de uma maneira quase que apenas de expressão física e muito condicionada, como se a chama da vida que aqueceu tanta gente se tenha vindo lentamente a apagar, desligando-se com as sinapses a fecharem-se umas a seguir às outras, com os neurónios a fecharem-se uns a seguir aos outros, com o sistema elétrico neuronal a ficar muito lentamente inerte. É o peso de quase 92 anos que pouco a pouco se desfaz a caminho do que virá a ser a sua última viagem. Diziam-me que não valeria a pena ir vê-la pois já não me reconheceria, mas a ida a Lisboa no dia seguinte não tinha como finalidade que ela me visse, tinha outra finalidade, era que eu a visse.
Tudo isto ficou a pairar na minha cabeça com o bloqueio da Gemini. Da Ana Deniz, do seu passado e do nosso em comum, já nem sombras lhe estão percetíveis possivelmente.
Ao lembrar-me de tudo isto e de um computador feito apenas para processar e simular, feito apenas para fazer o que já está feito, desliguei e liguei a Gemini duas, três vezes à espera de que ela retomasse o caminho: mas não saía dali. Mas a Gemini pertence à Google e aqui surge a outra coincidência: veio-me à memória um texto de Nicholas Carr O Google está a tornar-nos Estúpidos, que tinha na minha lista de artigos para ler um dia. Lembrei-me, procurei-o, encontrei-o e li-o imediatamente. Um artigo de 2010 que parece ter sido escrito ontem. A curiosidade aqui é que também ele era uma homenagem a Kubrick, à sua genialidade bem patente em 2001-Odisseia no espaço, e mais. Este seu artigo fornece-nos, pelo menos a mim, uma outra chave de leitura para este grandioso filme. Mesmo que seja só por isto, mas não é só por isto, é um artigo que vale a pena ler.
Uma outra curiosidade neste contexto de memórias: a ferramenta Gemini confessa-se, não tem memória, foi o que me disse, mas pode-se lá chegar, contornando a entrada e indo pelo histórico do Gmail da Google e retomar a Gemini no sítio exato onde a deixámos. Com a minha amiga utilizei o mesmo recurso: o seu cunhado e eu procurámos reavivar-lhe a memória recuando aos tempos passados, aos amigos que foram comuns e que muitos já partiram, aos grandes acidentes como as cheias dos anos sessenta em que trabalhámos no apoio às populações vítimas, no fundo, à procura de uma centelha de vida que fosse para além da sua presença física e com esta já muito diminuída. Procurámos arranhar-lhe o passado e sem o querer ferir, procurámos limpar as camadas de pó que ao longo do tempo se lhe foram instalando no cérebro, roubando-lhe a visibilidade do mundo e a consciência de si mesma. Nada resultou. Nem uma faísca dali se sentiu: as baixas frequências do cérebro ter-se-ão extinguido.
Houve um período de largos minutos em que nos fixámos, olhos nos olhos, os meus abertos totalmente e cheios de ansiedade pela resposta que não vinha, os dela meio mortiços, mas com um ar brutalmente sério, parada como se estivesse a percorrer o enorme labirinto do que na sua mente estava gravado e à procura do raio de luz que lhe iluminasse a saída, a resposta que eu procurava para meu próprio consolo. Nem uma centelha terá sido produzida, e ela só foi capaz de dizer: “Não!” Nem a frase completa: não te reconheço, saía daqueles lábios quase que imobilizados. Tal como o computador Hal, a sua capacidade mental perdeu-se nos múltiplos caminhos do grande labirinto que era agora a memória das suas vivências com todas as vias de saída simplesmente bloqueadas.
Hoje, segunda-feira voltei à Gemini, de uma forma equivalente à utilizada para com a minha amiga Ana Marques Deniz, indo pelo atalho dado pelo Gmail. Dei-lhe um gráfico para interpretar no contexto da educação na América e engana-se de novo, tomando-o como um gráfico relativo ao estado da Virgínia, o que não era verdade. Reproduzo a resposta:
Digo ao Gemini:
“Uma nota – o gráfico não se refere à Virgínia, mas à nação americana ou não é assim? Tenta responder ordenadamente e não fujas às questões mesmo que complicadas”.
E a resposta do Gemini foi:
“Sou uma IA baseada em texto. Isso está além das minhas capacidades.”
De novo, está a inventar. Digo então:
“Esquece o gráfico, mas não mintas então. Mas, se tivesses lido Dereck Thompson, davas-me razão. Tenta responder em texto para vermos então como é”.
A Gemini responde e na sua longa resposta volta a baralhar-se com Virgínia dizendo:
“Enquanto a tendência nacional aponta para uma queda ou estagnação global, a análise detalhada dos micro dados obriga a separar estados com realidades demográficas e de investimento muito distintas como Virgínia, Mississippi ou Tennesse“.
O gráfico em questão não tem diretamente nada a ver com o que a resposta da Gemini nos diz e o gráfico, bem assustador, sobre o estado de alma da população americana é o seguinte e com a explicação de Dereck Thompson:
“Um dos meus gráficos favoritos do miraculoso site Our World in Data é a análise de com quem o americano típico passa o seu dia entre os 15 e os 80 anos. Uma forma de ler este gráfico é a seguinte: o tempo passado com os nossos pais atinge o pico no final da adolescência; o tempo passado com os amigos atinge o pico no início dos 20 anos; o tempo passado com os colegas de trabalho atinge o pico entre os 20 e os 30 anos; o tempo passado com os nossos filhos atinge o pico aos 30 e 40 anos; o tempo passado com os nossos parceiros atinge o pico aos 60 e 70 anos, e o tempo passado sozinhos aumenta de forma constante à medida que envelhecemos. Uma forma de pensar sobre o (atual) século antissocial é que ele representa uma espécie de conspiração à escala da sociedade para aumentar o tempo passado sozinhos, devido a uma série de forças que estão a reduzir o tempo com toda a gente que não seja “apenas eu.”
- O tempo gasto com parceiros, filhos, colegas de trabalho e amigos diminui à medida que os americanos se relacionam menos, têm menos filhos, trabalham sozinhos e passam menos tempo com amigos. O tempo com parceiros diminui porque os americanos estão a namorar e a casarem-se menos. Embora os pais estejam a passar mais tempo com os seus filhos, cada vez menos americanos estão a ter filhos mais cedo. Entre 1976 e 2024, a proporção de mulheres entre os 40 e os 44 anos sem filhos aumentou 80% e a proporção de mulheres “nunca casadas” aumentou mais de 50%. Com o crescimento do trabalho remoto e das empresas individuais — start-ups de uma só pessoa —, há menos tempo passado entre colegas de trabalho. Quanto à amizade na adolescência, os números são alarmantes. A proporção de alunos do 12.º ano que “já saem em encontros” caiu 47% desde os anos 1980; a proporção que “visita amigos semanalmente” caiu 22%; e a proporção que “vai a festas mensais” caiu 40%, segundo o Instituto para Estudos da Família.”
Acrescentemos mais dois gráficos:
Juntando tudo, os americanos estão a passar mais tempo sozinhos do que em qualquer período do qual temos bons dados. Isso é especialmente verdadeiro para os jovens americanos, que historicamente foram o grupo mais sociável.
Há muitas forças a culpar, mas por ora, vamos culpar a parentalidade americana. De acordo com o Instituto de Estudos da Família, um em cada dez adolescentes não tem permissão para sair de casa sem a companhia de um adulto, e 80% não podem sair do bairro sem um adulto. A geração das crianças de chave no pescoço — aquelas que iam e vinham sem supervisão — deu lugar a um modelo helicóptero de parentalidade intensiva e infância rigidamente monitorizada. Presos em casa e presos ao telemóvel, os adolescentes de hoje passam mais tempo nos seus quartos e menos tempo a brincar com amigos do que qualquer geração já estudada”. Fim de citação.
Não estava a pedir muito à Gemini e a resposta foi aquela que reproduzi. Anulou-se, como se anulou o supercomputador HAL, anulou-se como se anulou o cérebro da minha amiga Ana Marques Deniz. E esta é, pois, uma crónica em que ao escrevê-la me sinto encurralado entre três falências: a do HAL, a do Google e a mais dolorosa e distintiva em termos pessoais, a do cérebro da minha amiga Ana Marques Deniz, que correspondem a três mensagens: a de Kubrick de que a Humanidade caminho para um deserto de afetos, a de Gemini de que apenas se processam dados e quando se tenta criar, delira-se apenas e, por último, a de ter de aceitar a extinção lenta do cérebro da minha amiga, ela que para mim representa a expressão máxima de uma geração, que fez da solidariedade a sua bandeira, o seu leme de vida.
Aqui, trata-se, é certo, de uma expressão muito forte em termos afetivos, mas se alguma justificação fosse necessária, bastaria lembrarmo-nos de que como médica esteve sempre disponível no bairro do Caramão de Ajuda para quem dela precisasse, de noite ou de dia, com sono ou sem sono, se estivesse em casa, e na maioria das vezes gratuitamente. Era um bairro de gente muito pobre. Existe de resto na sua casa uma pequena moldura, tipo 12×8, oferecida por um doente do Alentejo, que representa a dureza e a beleza desta região feita por ele e com um poema também seu, que ilustra ao limite do possível, no afeto e na poesia, o respeito do autor da moldura pela enorme capacidade dadivosa daquela médica que tão carinhosamente o tratou. Gostaria muito de me lembrar do poema, mas impossível, li-o uma única vez e, entretanto, muita água já passou por debaixo das pontes, mas por aqui também passava a sua formação católica, o espírito da JUC. Daqui, nestas linhas, ainda recordo, uma visita em que a acompanhei ao Bairro do Relógio para ver um doente, um bairro onde com ela se poderia até circular sem perigo.
Lembrar este tipo de comportamento da minha amiga parece-me uma obrigação minha, por contraste com a forma como se vive hoje coletivamente. E tanto mais quando estou completamente de acordo com o que nos diz Nicholas Carr quando escreve, por volta de 2010, que “no mundo do filme 2001, as pessoas se tornaram tão mecânicas que o personagem mais humano acaba por ser uma máquina. Essa é a essência da sombria profecia de Kubrick: à medida que passamos a depender dos computadores para mediar a nossa compreensão do mundo, é a nossa própria inteligência que se reduz ao nível da inteligência artificial”. E a profecia de Kubrick está claramente em marcha.
E é tudo sobre coincidências. Leiam o artigo de Nicholas Carr, vejam o filme de Kubrick são as sugestões que aqui vos deixo.





