POESIA AO AMANHECER – 182 – por Manuel Simões

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GOMES LEAL

(1848 – 1921)

A TRAIÇÃO (AUTÓPSIA DE UM REI)

(fragmento)

Senhor

se acaso um rude e enérgico plebeu

pode ser um juiz, e um rei tornar-se réu,

se acaso o assassinado à noite n’uma esquina

pode gritar – traição, – contra quem o assassina,

se acaso um rude velho excomungou Paris,

e Juvenal cuspiu na imperial meretriz,

e a História toda escarra em Judas, o traidor,

eu serei o juiz – e vós, o réu, Senhor!

Sim, mancharás na lama, ó rei, os teus brazões,

e terás por juiz a Plebe e os corações

dos guerreiros fiéis, bruscos, encanecidos,

que chorarão de raiva os louros prostituídos,

se deres os pendões furados das metralhas,

que já viram o fumo e os sóis de cem batalhas,

a aura da Liberdade e o sopro das desgraças,

a voz das sedições nas ruas e nas praças,

se deres os pendões… gloriosos tanta vez…

– para os calcar aos pés do marinheiro inglês!

Ligado aos ideais republicanos e em consonância com o espírito do tempo, o Autor envereda por uma poesia panfletária ou satírica, abertamente antimonárquica e anticlerical: “A Canalha” (1873), “Claridades do Sul” (1875), “Anticristo” (1886, refundido em 1907 numa versão místico-sentimental), “Fim do Mundo” (1900), por exemplo. Converte-se mais tarde ao catolicismo, produzindo então “A Senhora da Melancolia” (1910), numa adesão a uma forma de lirismo mariânico.

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