“A PAIXÃO”, DE ALMEIDA FARIA – por Manuel Simões

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A recente reedição deste romance de Almeida Faria (1ª. ed. 1965; 12ª. ed. revista, 2013), dá-nos a oportunidade de revisitar uma obra que marcou, sem dúvida, a narrativa portuguesa dos anos sessenta, pelo carácter inovativo da efabulação e até porque consolidou um autor que se tinha estreado com o romance “Rumor Branco”, publicado em 1962, quando era ainda estudante de Filosofia e tinha 19 anos de idade.

Imagem1Com este romance, o que impressiona desde o início é um processo de escrita que considera as potencialidades da palavra, transformando a obra literária num laboratório da narrativa, num lugar de paciente investigação, tudo no sentido de recuperar todas as potencialidades da linguagem e de colocá-las ao serviço do texto. A novidade (e radicalidade) de “Rumor Branco”, com prefácio de Vergílio Ferreira, determinou até uma famosa polémica entre o autor de “Aparição” e o crítico Alexandre Pinheiro Torres, e cujas peças foram publicadas no “Jornal de Letras e Artes” (Janeiro e Fevereiro de 1963).

“Rumor Branco”, com efeito, inicia alguns processos posteriormente tornados mais evidentes precisamente com “A Paixão”, primeiro romance duma tetralogia que se completa com “Cortes” (1978), “Lusitânia” (1980) e “Cavaleiro Andante” (1983), e que, numa espécie de “roman-fleuve”, desenvolve a história de uma família do Alentejo (proprietários de terras) através duma tensão que evidencia os conflitos sociais e de geração, paralelamente ao que estava acontecendo no tecido social do país.

“A Paixão”, porém, é talvez o romance do autor onde a procura de uma nova forma é mais profunda e mais rigorosamente controlada. Ali se nota, em particular: o movimento da escrita, isto é, um ritmo poético de grande rigor (Óscar Lopes viria a classificá-lo como «poema em ritmo livre»); e a autonomia da palavra que se transforma em objecto e corpo privilegiado do discurso narrativo. Deste modo, o processo diegético é essencialmente metafórico, razão por que o texto se constrói através duma prosa poética que põe em evidência não só as formas do conteúdo e, por isso mesmo, também o conteúdo e as modalidades para o apreender.

O espaço da narrativa não revela o outro espaço, isto é, o mundo onde se movem(algures, numa vila do Alentejo) as dez personagens no interior de uma família burguesa – pai, mãe, cinco filhos, duas criadas e um velho servo. Mas o narrador encontra modo de inserir outros indicadores quando afirma, por exemplo, que Samuel é «um jovem proletário que trabalha em Lisboa» e que o pai “outrora entrou para o curso de agronomia só porque, ao chegar a Lisboa tendo feito o liceu, foi atrás duma corista para o Porto e, quando regressou, apenas a escola de agronomia estava ainda aberta para matrículas» (p. 214).Imagem2

A acção do romance distribui-se por três partes (“Manhã”, “Tarde”, “Noite” de uma Sexta-Feira Santa), representando as três unidades do método dialéctico tese-antítese-síntese, resultando a última a análise da realidade e a “saída” do caos de confusão onde pontifica o “pater familias”. Como foi dito por Óscar Lopes, no prefácio ao romance, este segue metaforicamente «o tema das Trevas com uma Páscoa já pressentida», entendendo-se “Trevas” como metonímia de um espaço e tempo sociais e “Páscoa” como Ressurreição que se pode ler, em sentido profético, como antevisão de revolução social ou, na expressão do narrador, como «voz pelas vanguardas pedida emprestada, motor futuro da terra de que falo, estória próxima, tarefa imediata» (p. 215). De facto, a ruptura com a «patriarcal reunião familiar» tem lugar quando João Carlos (estudante de Direito), depois de ter sido atacado pela sua actividade política e pelas «atitudes todas que tomara nesse ano lectivo, no dia do estudante» (p. 191), resolve abandonar o caos, isto é, a casa paterna, para se entregar à sua liberdade.

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