POESIA AO AMANHECER – 192 – por Manuel Simões

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CAMILO PESSANHA

(1867 – 1926)

“Floriram por engano as rosas bravas”

Floriram por engano as rosas bravas

No inverno: veio o vento desfolhá-las…

Em que cismas, meu bem? Porque me calas

As vozes com que há pouco me enganavas?

Castelos doidos! Tão cedo caístes!…

Onde vamos, alheio o pensamento,

De mãos dadas? Teus olhos, que um momento

Perscrutaram nos meus, como vão tristes!

E sobre nós cai nupcial a neve,

Surda, em triunfo, pétalas, de leve

Juncando o chão, na acrópole de gelos…

Em redor do teu vulto é como um véu!

Quem as esparze – quanta flor! – do céu,

Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?

(de “Centauro”, 1916)

Viveu largos anos em Macau e interessou-se vivamente pela literatura chinesa, tendo feito algumas traduções. É considerado o autor do melhor conjunto de poemas do simbolismo português, com certa influência na geração de “Orpheu”. Os seus poemas foram reunidos no volume “Clepsidra” (1922), sucessivamente revisto e ampliado em “Clepsidra e outros poemas” (1969).

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