SIMONCITO – por Fernando Correia da Silva

Um Café na Internet

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Sim, sou o Simon Bolivar e recordo Caracas, Maria Antonia, Juana Maria, saias-balão, minhas irmãs a voltear, não param de rir com as minhas diabruras. Simoncito! dizImagem1 a minha Mãe, nunca mais tomas juízo, não sejas tão rebelde, vais sofrer muito na vida… Não me lembro é do Pai, tinha eu três anos quando morreu. O luto, isso lembro. As pretas a carpir, velas acesas, as meninas a chorar. A Mãe a partir para a herdade, nunca mais há-de voltar, fica maior e apagado o nosso palacete. Juan Vicente, o meu irmão mais velho, alto, silencioso, sempre atrás de mim, adoração. Pensa que sou um santo a saltar do andor. D. Miguel Sanz é que não pára de esbravejar, Simoncito, tu és pólvora. Então, Mestre, fuja que eu vou explodir!

Professores, muitos, corrupio, ninguém me atura. D. Carlos Palacios, meu tio e tutor, descobre um outro, Samuel Robinson, que me obriga a dispensar os meus escravos, ninguém é dono de ninguém, cada qual dono de si. E eu? Para que preciso eu de um mestre? Não sou escravo de ninguém, aprendo sozinho, sou dono de mim. Ri-se. Dá-me a ler o Emílio do Rousseau. Na herdade ensina-me a cavalgar. E a nadar, nus, ele e eu. É mal visto por todos. Vagabundeara pela Europa. Casara com uma índia. Em vez de baptizar as filhas, dera nomes de flores às meninas. Não sei como o tio se decidiu a contratá-lo. Amarinha à copa de um ipê. Segura-se a um ramo com as pernas, abre os braços, Simoncito, a Liberdade é o estado natural do Homem, nem escravos nem senhores, todos livres como pássaros!

Livre? Sou livre, por acaso ? Sou mas é um crioulo. De boa linhagem, sangue branco, mas crioulo desprezado pela Corte. Sangue honesto de moleiro, diz Robinson. Mestre, sois louco? Sangue dos nobres de Espanha! E a mó que está no escudo dos Bolívares? Como explicas? Moleiro, Simoncito, é sangue de moleiro… Fúria, quero matá-lo. Agarra-me os braços. Arrasta-me pela ruas de Caracas. Leva-me ao Arquivo. Folheia catrapázios e poeiras. Lá está a prova: o meu ancestral, o primeiro que veio de Espanha, era realmente um moleiro. Não contenho as lágrimas,  vergonha, labéu. Dá-me uma palmada nas costas, anima-te rapaz, é o melhor dos sangues! Tudo fez com o próprio esforço, não precisou de escravos. Mestre, libertemo-nos de Espanha, odeio os espanhóis! Ai odeias? Diz-me lá, Simoncito: e a quem odiarão os pobres índios? 

A Liberdade, ai a Liberdade… Em Nova Granada há um levante contra os espanhóis. Robinson está envolvido. Chacinada a maioria dos revoltosos. Os poucos sobreviventes, presos. Entre eles, Samuel Robinson. Mestre Miguel Sanz é quem o safa da pena capital. Consegue até que o deixem fugir e ele desanda para o exílio. Onde o mestre, onde o amigo? Voltarei a vê-lo? Tudo esfumado…

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