POR QUE MOTIVO NÃO HÁ SAÍDAS PARA A CRISE – 2- por Ventura Leite

No meu livro eu denunciei o que considero uma grave irresponsabilidade que diversas pessoas com prestígio manifestaram de forma reiterada quando disseram,e dizem,que em Portugal não tinha havido uma BOLHA IMOBILIÁRIA!!! Ela não só existiu como foi um dos pilares à volta dos quais se construíu muita da nossa actual desgraça! Se as famílias continuarem a ser assaltadas pelo Estado, há um risco grave de aumento desastroso de insolvência das famílias, o que significa um colapso potencial para a banca. Mas o problema ganha ainda uma outra dimensão, esta de natureza mais ética. Com efeito, segundo dados que me foram fornecidos há uns anos, e creio que mesmo publicados, pela AECOPS, mais de metade do valor comercial final das habitações era constituído por taxas diversas pagas ou entregues ao Estado ( central e local). Vejam bem este outro lado desta desgraça, em que as famílias trabalharão uma vida não para no final ficarem com uma casa que vale esse esforço, mas para pagar o que já foi gasto pelo…Estado!! Esta questão diz-me apenas que é uma das razões porque esta crise não pode ser resolvida sem que esta questão tenha um tratamento sério através de um compromisso histórico, pois há aqui uma questão moral inaceitável que fica esquecida e que cai sobre as famílias, uma vez que o Estado Português incentivou mais do que muitos outros estados europeus à compra de habitação própria, fazendo-o por várias razões, dentre as quais porque os governos não quiseram afrontar o problema do arrendamento e da respectiva lei idiota. Estamos, assim, perante um primeiro paradoxo, que é constituído pelo facto de que o sistema bancário ter sido grande responsável pela crise e agora ter que ser o primeiro a ser salvo para se evitar um situação ainda pior! É uma situação que ocorre em Espanha, em Itália, Inglaterra, e por aí fora. Junto um quadro que acrescenta informação a este tópico, para reforçar a minha tese de que não só estamos longe da solução da crise, como há ainda ameaças muito graves e escondidas do fluxo informativo mais mediatizado e abordado pelos políticos actores que temos. Este quadro é da autoria da empresa Weiss Research. A Weiss Research é uma agência de rating norte-americana que ao contrário das três mais conhecidas ( Moody”s, Spencer &Poor”s (S&P), e a Fitch) não depende do financiamento das entidades que avalia. Há dias esta agência lembrou que em Abril de 2012 tinha baixado para o nível D o rating dos bancos cipriotas que recentemente faliram, tendo em Dezembro de 2012 baixado o mesmo rating para o nível E- .

Deste quadro resulta que na União Europeia ( incluindo portanto o Reino Unido ) há uns nove grandes bancos numa situação que varia entre o fraco e o muito fraco. Os activos destes bancos ultrapassam o PIB de toda a União Europeia. Mas se nos cingirmos aos activos dos seis bancos da Zona Euro constantes deste quadro, eles totalizam cerca de 12,4 triliões de dólares, o que é superior ao PIB da Zona Euro! Recorde-se que o tristemente famoso banco norte-americano LehmanBrothers, que faliu em Setembro de 2008 lançando o pânico no sistema financeiro norte-americano e depois mundial, tinha activos na casa apenas dos 640 000 milhões de dólares. O Banco DEXIA, franco-belga, que abalou o sistema bancário francês em 2011, tinha 560 000 milhões de € de activos. Em suma, aqueles bancos europeus incluídos no quadro estão hoje numa situação financeira não muito melhor do que a dos dois bancos cipriotas que recentemente faliram. Se a economia europeia falhar no seu relançamento, e se prosseguir a opção absoluta e cega pela austeridade como forma de equilibrar as contas públicas e parar o crescimento das dívidas soberanas, a pressão sobre o sistema bancário europeu, hoje já muito stressado, constituirá um elevadíssimo risco de um evento financeiro catastrófico cujos efeitos em dominó serão muito difíceis de parar se a EU não tiver um plano de emergência para o efeito. Em Portugal, se tomarmos os cinco maiores bancos ( CGD, BCP, BPI, BES e Santander) com activos combinados inferiores a 370 000 milhões de €, a verdade é que têm uma situação muito perigosa de endividamento das famílias. Se prosseguir o aperto da situação financeira das famílias, como referi antes, com o crescimento do desemprego, com o aumento dos impostos, com a redução de salários e subsídios, de benefícios fiscais, aumento de tarifários diversos, e, por último, até redução de pensões, os bancos nacionais irão seguramente ser gravemente afectados colateralmente pela insolvência das famílias. Isto, por outro lado, quer dizer também que estando os bancos nacionais devedores a outros bancos europeus, designadamente espanhóis, a gestão da situação financeira será cada vez mais difícil à medida que a recessão em espiral prosseguir nos países em maiores dificuldades. Lembro que situação da Grécia causou prejuízos de mais de 1600 milhões de € à banca nacional só no ano passado! Quase 1% do PIB português! E se a banca portuguesa falhar nos seus compromissos para com a banca espanhola, a situação frágil desta última pode entrar num novo patamar de crise. Isto dá uma ideia da fragilidade da situação bancária europeia e dos efeitos que o agravamento da recessão possa trazer em países como a Grécia, a Irlanda, Portugal, Espanha , Itália, e por fim na França. E o que temos em cima da mesa? Temos as hesitações e a lentidão europeias em torno na União bancária, para que o sistema passe a ficar sob maior controlo, e só depois se irá discutir um caminho para o relançamento e reorientação da economia europeia, a começar pelos países onde ela é mais disfuncional. É neste contexto que o BCE assume um papel fundamental para evitar o colapso financeiro e bancário imediato, mas não para substituir os governos na adopção duma estratégia económica vencedora e de futuro. Para isso é necessária uma evolução política, e, como se pode concluir, chegamos ao mesmo bloqueio e ao mesmo ponto de todas as nossas reflexões…. Há saídas para esta situação? No livro que publiquei no ano passado apresentei uma concepção de uma solução adequada para o País. Uma solução com uma componente monetária, económica, social e política. Alguns disseram que era uma solução difícil de ser aceite pela União Europeia, e outros disseram que implicaria uma desvalorização do Euro equivalente a um abandono da Moeda Única. Não concordo, e considero cada vez mais como realista e viável. Mas alguém apresentou alguma solução melhor? Existe alguma boa solução? Estamos à espera de uma solução boa que nos recoloque onde estávamos em 2007-2008? Em primeiro lugar não interessa sequer nenhuma que nos recoloque naquele patamar, porque eraum patamar ilusório de funcionamento da economia. Mas, mesmo que não fosse assim, não havia hoje recursos financeiros para o proporcionar. Também disse isto no Parlamento em 2009. Quero enfatizar que a solução que apresentei é a única que permite ao Estado resolver de forma estrutural e sistemática o problema das PPPs, da perda dos activos das famílias e o saneamento das finanças das empresas públicas, sem o que nenhuma nova economia emergirá em Portugal durante muitos anos, pois isso exige um verdadeiro reset da economia, o que não será possível no quadro do Pacto Orçamental acordado na Zona Euro. Portanto, e segundo o comentário dum analista inglês feito há dias, a melhor solução acabarápor ser,mais tarde do que seria desejável, uma de várias alternativas horríveis. E para mim, a cada dia em que a classe política falha, ou hesita , a solução final será efectivamente não uma solução inteligente mas apenas uma de várias opções horríveis.

Nestes termos, todo o debate nacional que tem actualmente lugar em torno dos novos cortes que o governo quer levar a cabo é obviamente justificado, mas é irrelevante na busca e construção da melhor solução. Apenas ajuda, indirectamente, na medida em que agravando a situação social e económica aproxima-nos mais da parede inultrapassável que fará sentar todos à mesma mesa e discutir a sério e com sentido patriótico. Há apenas um problema: é que por vezes julgamos que essa parede é já a seguir, mas acontece sermos surpreendidos com a distância que podemos percorrer dentro da desgraça.

Quem há alguns anos admitiria que fosse feito aos portugueses o que lhes estão a fazer hojesem o País se virar do avesso?

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