POESIA AO AMANHECER – 199 – por Manuel Simões

poesiaamanhecer
MÁRIO SAA

(1893 – 1971)

“TRATAR DA LINGUAGEM COM DESVELO…”

Tratar da linguagem com desvelo

não é a nobre missão dos poetas,

mas a linguagem desvelada e pura

é o caminho que as almas encontraram

quando acaso têm ideias de poetas.

Andar à roda da forma de dizer

é descer às emoções carnais,

emoções mais grosseiras, mais redondas.

Perde-se o espírito a buscar o feitio.

Perde-se a alma a reparar no corpo.

O interior desaparece e tudo é puxado cá para fora.

Ganha-se a acuidade dos sentidos

perde-se a acuidade da transcendência.

Poesia é transcendência pura.

É o cerrar dos lábios e dos olhos

e o voltar-se para uma vida interior

quase inexpressiva.

E se acaso se exprime é puro e leve.

(de “Poesia e alguma prosa”)

Pseudónimo de Mário Pais da Cunha e Sá. Poeta modernista com íntimas ligações, não directamente à revista “Orpheu” mas à geração que a ela esteve ligada. Estreou-se com “Evangelho de S. Vito” (1917), de influência nietzscheana, e deixou muitos poemas dispersos por revistas de referência, entre as quais “Athena”, “Presença” ou “Tempo Presente”. A obra poética foi reunida por João Rui de Sousa no vol. “Poesia e alguma prosa” (2006).

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