Um Café na Internet
Lembro-me de ter estado na batalha de Alcácer Quibir, em 1578. Não assisti à morte d’El-Rei D. Sebastião, nem sequer o vi cair do cavalo, ocupado estava eu a terçar armas, lado a lado com o Prior do Crato. Acabámos vencidos e aprisionados pelos mouros, mas fomos libertados pouco tempo depois. Quem pagou o meu resgate foi D. António, o Prior do Crato.
Lembro-me que, durante a menoridade d’El-Rei D. Sebastião, o regente fora o Cardeal D. Henrique, seu tio-avô e chefe supremo da Inquisição. O jovem monarca desaparece em Alcácer Quibir sem deixar descendência e é por isso que o velho ranhoso passa de regente a rei. Condição que lhe dá o privilégio de nomear o herdeiro da coroa. Vários são os pretendentes, cada qual com a sua legitimidade: um português, uma portuguesa e vários estrangeiros. O velho reúne Cortes em Almeirim e tudo faz para que Filipe II de Castela seja o nomeado, a pretexto de ser neto materno do nosso D. Manuel I. Discutem e discutem, porém de peremptório nada decidem, encostada fica a porta. Filipe II está lá fora, mira, sabe de tudo o que se passa cá dentro. Para ele é muito fácil assaltar a nossa casa.
Lembro-me que a 31 de Janeiro de 1580 morre o Cardeal D. Henrique. Eu, a malta, a maralha, a arraia-miúda, os pés descalços, também alguns desvairados moços burgueses, aí vamos nós, turbamulta a desfilar e a cantar pelas ruas de Lisboa:
Viva El-Rei D. Henrique
No inferno muitos anos,
Pois deixou em testamento
Portugal aos castelhanos.

