EDITORIAL – ACTO FALHADO?

Imagem2A crise generalizada que afecta profundamente a área política do nosso tecido social, reflecte-se na actividade dos comentadores que exploram cada um dos fait divers que vão surgindo, como se fosse o último. Na realidade, já tudo foi dito sobre um executivo que sobrevive à própria morte, protegido por um supremo magistrado da Nação que finge não dar pelo óbito, parecendo esperar por um qualquer milagre de ressurreição. Um exemplo dessa atenção a factos sem importância real, foi a especulação sobre o deslize, a gaffe, o acto falhado, de Marques Guedes ao referir Paulo Portas como  «líder do principal partido da oposição».

Miguel Sousa Tavares, falando ontem na SIC, foi da opinião que o ministro da presidência,  quando se enganou, «disse o que pensava, não o querendo dizer» e concluiu que «Foi uma gaffe mas que revela o que no fundo lhe vai na cabeça». É a esta sobreposição do desejo inconsciente sobre aquilo que se quer transmitir que Sigmund Freud, no seu livro A psicopatologia da vida quotidiana, (1901) chamou “fahlleistung” – acto falhado (no Brasil, ato falho). Na Roma Antiga, chamava-se lapsus linguae, embora Freud tenha defendido que o lapso não é da língua mas sim uma falha provocada pelo inconsciente. O que se quer ocultar, emerge.

Muito bem. Ficamos a saber que no PSD há quem pense que Portas é um inimigo dentro das muralhas. Nós também não acreditamos que ele esteja a fazer o papel do «pide bom». Como dissemos, somos da opinião que se está a querer demarcar de um executivo claramente derrotado. Porém, o que pensa Marques Guedes ou qual é a estratégia de Portas, são irrelevâncias no meio da catástrofe. Mais grave é o facto que Daniel Oliveira salienta hoje no Expresso, de um presidente da República que não hesitou em inventar escutas telefónicas para acelerar a queda de Sócrates e que agora finge que tudo está bem para adiar o funeral deste executivo. Mais grave do que todas as gaffes, lapsus linguae e fahlleistung, são os actos (eleitorais) falhados de um povo que invoca os direitos que Abril lhe devolveu, mas que no momento de votar deixa que um conservadorismo atávico e fatalista o faça eleger inimigos de Abril – herdeiros do partido único do regime salazarista. São, no sentido literal e sem necessidade de leituras e interpretações freudianas, autênticos «actos falhados». E fatais.

1 Comment

  1. Texto de antologia. Embora devesse ir mais longe na acusação muito necessária a quem tem provocado e explorado a alienação muito pronunciada da População
    Para quem nada percebe de jornalismo esta peça deve ser um exemplo para um editorial profissional. CLV

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