POESIA AO AMANHECER – 200 – por Manuel Simões

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FERNANDO PESSOA

(1888 – 1935)

“NÃO SEI SE É SONHO, SE REALIDADE”

Não sei se é sonho, se realidade,

Se uma mistura de sonho e vida,

Aquela terra de suavidade

Que na ilha extrema do sul se olvida.

É a que ansiamos. Ali, ali

A vida é jovem e o amor sorri.

Talvez palmares inexistentes,

Áleas longínquas sem poder ser,

Sombra ou sossego dêem aos crentes

De que essa terra se pode ter.

Felizes, nós? Ah, talvez, talvez,

Naquela terra, daquela vez.

Mas já sonhada se desvirtua,

Só de pensá-la cansou pensar,

Sob os palmares, à luz da lua,

Sente-se o frio de haver luar.

Ah, nesta terra também, também

O mal não cessa, não dura o bem.

Não é com ilhas do fim do mundo,

Nem com palmares de sonho ou não,

Que cura a alma seu mal profundo,

Que o bem nos entra no coração.

É em nós que é tudo. É ali, ali,

Que a vida é jovem e o amor sorri.

Este poema, porventura não muito divulgado, pertence à fase simbolista e pós-simbolista de Fernando Pessoa ortónimo. Já aqui, porém, se vislumbram as linhas essenciais do pensamento pessoano («Mas já sonhada se desvirtua,/ Só de pensá-la cansou pensar»), sobretudo do heterónimo Alberto Caeiro, o de “O guardador de rebanhos”. Mas o segmento “É em nós que é tudo” pertence à inteira obra pessoana.

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