Ontem e hoje decorreu o XXIV Encontro Nacional de Psiquiatria da Infância e da Adolescência, em Leiria, sob o título “As múltiplas interfaces na saúde mental infanto-juvenil”. Como convidado o Prof. Marcel Rufo, pedopsiquiatra francês de Marselha, que nos falou sobre “Defender uma medicina para adolescentes” e da sua experiência no seu país. Para além da sua experiência em meios hospitalares, e como professor, Marcel Rufo tem uma grande intervenção a nível dos media, onde se debate pela implementação de serviços que considera essenciais para dar resposta aos problemas actuais dos jovens, de uma forma muito pedagógica.
Afinal em França também se sentem as mesmas dificuldades que sentimos em Portugal, pelo que descreveu… A esse propósito, Augusto Carreira, Presidente da APPIA (Associação Portuguesa de psiquiatria da Infância e da Adolescência), que trabalha no Hospital Júlio de Matos, referiu como exemplo do “desarcerto” das políticas ministeriais uma situação recente do hospital. Para a reconstrução de um pavilhão destinado a apoio a crianças, as verbas que se conseguiram foram mínimas. MMas, pouco depois, mesmo ao lado, começou a ser construído uma pavilhão enorme, com todas as condições para os “inimputáveis”. Ou seja, para dar apoio e evitar que se chegue a inimputável não há dinheiro…. Mais uma vez a prevenção não interessa…
Um dos assuntos que Marcel Rufo tem debatido é a questão da autoridade que os pais ou os cuidadores necessitam de exercer na educação dos seus filhos. Muitos pais têm medo de serem menos amados pelos seus filhos se tiverem atitudes mais severas. No entanto, considera Rufo, pelo contrário, a autoridade, se fôr bem vivida, é um acto de amor que reforça a relação. Muitos pais têm dificuldade em passar aos filhos aquilo que querem. Em determinadas situações, como o divórcio, aparecem os “pais Club Med”, uma espécie de companheiros de jogo que se esforçam para agradar aos filhos. Considera que quanto mais o adulto especificar o que espera das crianças, mais a relação será clara. A vivência daquilo que chama os “momentos presentes”, em que se deve ser autêntico, mesmo que seja com a imposição de uma regra, pode estabelecer uma comunicação, é uma oportunidade para a relação pais-filhos. Acha que é uma “válvula de conflitos”.
Quanto aos adolescentes, eles gostam de conflitos bem reais, precisam de saber muito bem o que podem ou não fazer, detestam posições de meio termo. Com atitudes pouco firme não sabem o que pensar deles próprios, nem sobre os pais. Se ficam ou não satisfeitos, isso será secundário.
Claro que o que diz não é igual e ter atitudes “militares” e autoritárias. É que se o amor faz parte da vida, como um todo, um acto de autoridade será também um acto de amor. Chama a atenção para o facto de que a pior atitude que se pode ter é o desprezo. Nesses casos, a criança sente que não é amada, que não é reconhecida por aqueles que ele deseja satisfazer. Os pais têm que “torcer” pelos seus filhos, tal como o fazer por um clube de futebol…
No que se refere ao trabalho directo com adolescentes que se encontram perturbados, considera que fechá-los em unidades não é solução. A grande maioria o que precisa é de um banho de VIDA, de ter várias actividades, de conviver. Precisa de cultura, de desportos, de aprender a comunicar de uma forma saudável. Precisa de toda a comunidade.


