
Langue de bois é uma expressão francesa que designa a linguagem pretensamente especializada com que, particularmente os profissionais da política, expõem as suas ideias. No fundo, cada profissão tem a sua língua de madeira, médicos, carpinteiros, engenheiros, chefes de cozinha, a pretexto de um tecnicismo profissional criam um código a que só os iniciados podem aceder. Os comerciantes de Minde foram longe nesta matéria e criaram um dialecto, o minderico, que lhes permite trocar impressões entre eles sem que os clientes percebam o que dizem.
No período que se seguiu à Revolução de Abril, explodiram os «dialectos» ideológicos – cada partido, cada corrente política, tinha a sua linguagem – nas reuniões de «unidade» em que confluíam as várias esquerdas, mal alguém abria a boca, logo se sabia a que partido ou tendência pertencia. Havia também termos comuns a toda a esquerda – mas não eram muitos.
Com outro amigo, sob o pseudónimo de MIguel Lemos e inspirado numa edição das Comisiones Obreras, escrevi um Dicionário do Militante Operário, que uma editora de Lisboa publicou em 1975 e que teve grande aceitação – no prefácio, onde explicávamos as razões que nos tinham levado a realizar o trabalho, dizíamos – «o problema da linguagem excessivamente técnica – tecnicismo que muitas vezes foi usado para encobrir um certo obscurantismo ou imprecisão ideológica – não se resolve com este dicionário (ou com qualquer outro). É um problema que se relaciona com a formação intelectualizada dos nossos teóricos, os quais dispõem de material (palavras) que não estão ao dispor da maioria». No tal dicionário, havia uma entrada sobre “Voluntarismo”: «Tendência atribuída a sectores revolucionários que incorrem no subjectivismo de dar mais importância aos seus desejos (…) do que às condições reais (…) ao ponto de acabarem por deformar a análise da realidade e incorrerem num comportamento político irrealizável». No seu livro A Língua no Fio da Navalha, a Professora Isabel Casanova lebra que «dentro da mesma língua existem diferentes dialectos. Dialectos regionaid, sociais, pessoais (os idiolectos), históricos, ocupacionais, etc.» E conclui: «A unicidade linguística é uma abstracção, pois a língua só existe através da fala de todos nós». E acentua a dificuldade de discernir entre o que é ou não é linguisticamente correcto e o que deve ou não constar de um dicionário.
Temos, neste blogue, fugido, na medida do possível, às «línguas de madeira». Não apoiamos o Acordo Ortográfico, que nos parece diploma sem consistência científica, coisa política, oportunística. Mas também não perfilhamos a opinião de que ele acarreta a destruição do idioma. O idioma é forte, tem muitos séculos, e resiste a agressões. Por isso, recusamos ostentar o dístico que em muitas publicações, em papel ou on line, se apregoa a recusa do AO. Entre as dezenas de colaboradores, há quem defenda, quem recuse e quem ignore o Acordo Ortográfico. Todos são livres de usar o idioma como entendam. Ninguém tem o direito de impor seja o que for. A língua portuguesa carece de alguns instrumentos científicos – mas não está inteiramente desprovida desse suporte – os estudos de Leite de Vasconcelos e de Carolina Michaëlis, dicionários como os de José Pedro Machado, meu saudoso aamigo e pai do nosso João Machado (incluindo os dicionários onomástico e etimológico), o de Antônio Houaiss, etc. são trabaalhos notáveis, de grande abrangência e que registam numerosos vocábulos de todo o espectro lusófono.
Que ninguém tenha a tentação de impor regras que só interessam a quem as reconhecer como boas. A única regra a observar é o amor à Liberdade e à democracia e o respeito por quem não pensa como nós. O voluntarismo, o proselitismo, o integrismo, quem os trouxer, é melhor que os deixe à entrada deste barco.
