POESIA AO AMANHECCER – 204 – por Manuel Simões

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MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

(1890 – 1916)

ESTÁTUA FALSA

Só de oiro falso os meus olhos se douram;

Sou esfinge sem mistério no poente.

A tristeza das coisas que não foram

Na minh’alma desceu veladamente.

Na minha dor quebram-se espadas de ânsia,

Gomos de luz em treva se misturam.

As sombras que eu dimano não perduram,

Como Ontem, para mim, Hoje é distância.

Já não estremeço em face do segredo;

Nada me aloira já, nada me aterra:

A vida corre sobre mim em guerra,

E nem sequer um arrepio de medo!

Sou estrela ébria que perdeu os céus,

Sereia louca que deixou o mar;

Sou templo prestes a ruir sem deus,

Estátua falsa ainda erguida ao ar…

Paris 1913 – Maio 5

(de “Dispersão”)

O seu primeiro poema é datado de Fevº. de 1913 e o último de Fevº. de 1916. Em 26 de Abril deste ano suicidava-se, de smoking vestido, em Paris. Já foi dito que a sua obra é uma autobiografia, na medida em que exprime os conflitos do poeta consigo mesmo, abrangendo também o plano estético. A sua poesia distribui-se por “Dispersão” (1914) e pelas edições preparadas por Fernando Pessoa com base no material recebido de Paris em Abril de 1916: “Indícios de Ouro”, “Os Últimos Poemas” e “Manucure” (Orpheu 2”).

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