A MORTE DE HIPÓCRATES – por Octopus

Grande parte dos   médicos não têm um conhecimento profundo dos tratamentos farmacológicos que   estão a administrar, apenas têm uma vaga ideia formatada pelo que lhes foi   tramitido durante o curso.  O curso terminado,  a maioria não põe em questão os novos   medicamentos que surgem no mercado, confiam na informação transmitida pelos   delegados de informação médica ou nos estudos patrocinados pelos laboratórios  farmacêuticos que os comercializam.

Delegados de “desinformação” médica.

A principal formação que recebem os delegados de informação médica, após uma   formação técnica rápida sobre o medicamento, é a melhor maneira de convencer   o médico a prescrever a todo o custo esse medicamento.

Estes delegados são comerciais, como tal, bem poderiam apresentar a mesma   convicção ao vender uma caneta, uma marca de detergente ou um político. O   método é o mesmo: valorizar o produto, minimizando os efeitos secundários ou   simplesmente ignorando a sua ineficácia ou inutilidade.

Esta venda é feita cativando o médico de várias maneiras: saber ouvir,   fingir-se muito interessados na vida privada do médico que têm à sua frente   (familia, filhos, hobbies), com a finalidade de ganhar a sua confiança.

Os laboratórios recrutam delegadas de informação médica que bem poderiam ser   modelos de passarela ou jovens e atraentes delegados de informação médica.   Existe muitas vezes, nestes casos, um verdadeiro jogo de sedução, no limite,   um verdadeiro jogo de atracção sexual.

Sedutores e bem-falantes, propõem jantares nos restaurantes mais badalados da   cidade ou estadias em hotéis cinco estrelas, tudo pago, claro, pelo   laboratório farmacêutico que representam. Neste contexto, muitos médicos   sentem-se reis e rainhas envoltos pelo glamour efémero das circunstâncias.

Por vezes, e não raras, são viagens de luxo a países distantes que são   oferecidas, a pretexto de um qualquer congresso ou simpósio, que a maioria   nem sequer frequenta.

Perante tantas mordomias, como não se deixar convencer e recusar prescrever o   medicamento promovido, acabado de ser colocado no mercado (os mais rentáveis)   fundamentado em estudos apressados, testados em populações miseráveis da Ásia   ou de África, cobaias com características corporais e culturais muito   diferentes das nossas, cobaias esses que nunca irão ter direito a beneficiar   dos medicamentos pelos quais foram testados.

Médicos ao serviço da indústria farmacêutica.

Existem alguns médicos que trabalham diectamente para benefício da indústria   farmacêutica. Os menos perigosos são aquelas que se aproveitam do sistema: os   directores clínicos dessa indústria, que abertamente beneficiam das mordomias   e salários altíssimos pagos para ocuparem esses postos. Claro que defendem o   laboratório para o qual trabalham, mas estão “simplesmente” a   cumprir uma função.

Os mais perigosos são os encaputados, escondidos através de um qualquer   título ou renome e que definem as “guidelines” nacionais e   internacionais que a generalidade dos médicos segue sem questionar, a troco   de elevadas compensações monetárias. Constatamos que muitos deles têm assento   nos laboratórios produtores dos medicamentos que defendem.

Sem questionarem os numerosos estudos existentes sobre um determinado   medicamento, a maioria dos médicos acredita piamente nas conclusões   elaboradas por esses gurus. Acreditam estar a prescrever o melhor para os   seus doentes.

O grande problema está na maneira como são realizados os famosos estudos   clínicos que se tornam os padrões das futuras prescrições.

Como falsear um estudo clínico.

Tudo começa pelo simples facto que 95% dos estudos clínicos, devido em parte   ao seu elevado custo, são concebidos e realizados pelos laboratórios que   produzem o medicamento que querem vender, logo, ninguém no seu perfeito juízo   irá falar mal do que pretende vender.

Os estudos elaborados pelos laboratórios são depois entregues a um conjunto   de médicos que, ou porque acreditam genuinamente no medicamento ou porque   lhes trás benefícios monetários, têm logo á partida uma tendência natural   para encarar os futuros resultados desses estudos, de forma favorável em   relação ao medicamento em estudo. Começa aqui uma das partes tendenciosas do   estudo.

Durante a selecção dos doentes, com as caracteristicas necessarias para   entrar no estudos, um conjunto deles, apesar de reunirem essas condições é   eliminado por directrizes previstas pelos laboratórios que elaboraram o   estudo. São doentes que poderiam por em causa os resultados positivos   esperados, ficando apenas aqueles “perfeitos” para que tudo corra   bem, isto é que tenham a maior probabilidade do medicamento em questão ter   bons resultados.

Muitas das vezes, no decorrer do estudo, os doentes que fogem aos padrões   esperados são simplesmente eliminados do estudo.

Finalizado o estudo, os dados são entregues a uma empresa de analise de dados   contratada e paga pelo laboratório que encomendou o estudo. Essas empresas de   analise não querem perder o cliente que a sustenta, por isso rezam para que   os resultados sejam favoráveis ao medicamento estudado. E não é que corre tudo   bem, e que os resultados são mesmo favoráveis!

De qualquer maneira, os que se revelam desfavoráveis, apesar de esticar os   resultados positivos são guardados numa gaveta e nunca serão publicados.

Para aumentar articialmente os resultados favoráveis, várias técnicas são   postas em prática. Por exemplo, na analise estatística, as referências mal   defenidas são desvalorizadas (por exemplo: não sinto uma grande melhoria da   dor, transcrito para: melhor ) ou maximizadas (por exemplo: melhorei um pouco   da dor, transcrito para: bastante), numa escala de: pior, igual, melhor,   bastante.

Outra técnica é usada na elaboração das curvas e histogramas estatísticos. A   representação gráfica é feita de maneira a parecer que um determinado   resultado positivo é bastante superior aquele que é na realidade. O efeitos   secundários são frequentemente atribuídos a outros medicamentos (geralmente   os doentes estão polimedicados).

A próxima fase é contactar um médico “bem cotado” pelo seu estatuto   profissional, que seja uma fonte de credibiladade inquestionável para a   restante classe médica. A troco de elevadas quantias monetárias vai vender o   medicamente em congressos e colóquios. O resto, já vimos, cabe aos delegados   de informação médica.

Uma imensa teia de interesses.

Quando um medicamento começa a causar problemas, são desvalirizados e os seus   críticos ostracisados. Quando surgem estudos independentes contrários ao   medicamento, pura e simplesmente não são publicados, dado que as revistas   médicas estão nas mãos de decisores médicos que justamente também trabalham   para a indústria farmacêutica.

Os organismos nacionais que fiscalizam os medicamentos, como o Infarmed em   Portugal, estão nas mãos da indústria farmacêutica, e portanto não querem   matar a galinha de ovos de ouro. O mesmo se passa com os organismos   internacionais, 95% das receitas da OMS provém de subvenções da indústria   farmacêutica, muitos delas a coberto de Fundações fictícias dessa indústria.   Nestas condições como garantir a independência?

Quando finalmente um determinado medicamento, demasiado prejudicial para a   saúde é retirado do mercado, muitas vezes após anos de denúncias e algumas   mortes, é somente quando a sua rentabilidade financeira já foi amplamente   atingida.

A deriva da medicina.

Não é pois de estranhar que na medicina actual sejam colocados cada vez mais   frequentemente medicamentos insuficientemente estudados, alguns   posteriormente retirado do mercado, após várias mortes, mas que entretanto já   renderam milhões de dólares.

Não é pois de estranhar que sejam colocados no mercado medicamentos que são   “mais do mesmo” em que diferem do anterior com uma simples   alteração molecular e que não trazem nada de novo, a não ser obter a tão   famigerada patente que lhes permite não serem copiados nos anos seguintes.   Vendidos como inovação, mais caro que os anteriores, que até funcionavam,   permitem aos laboratórios arrecadar milhões de dólares.

O exemplo do colesterol.

Não é de estranhar, que desde que os laboratórios decidiram tomar contar de   uma das mais frequentes causas de morte, as doenças cardiovasculares (não é   puro acaso que escolhem as mais frequentes, aquelas que dão mais dinheiro,   menosprezando as pouco frequentes), tivessem de escolham uma vítima, neste   caso o colesterol.

Hoje em dia, a propaganda está tão bem feita, que não existe praticamente   ninguém que não tenha o colesterol demasiado elevado e, claro, que tome a sua   estatina. Aliás os valores optimais não para de descer, óbvio, quanto mais   gente estiver fora desse valor considerado “normal”, mais serão   vendidas estatinas.

Este exemplo reflecte bem o poder da indústria farmacêutica que consegue   vender o que quer, começando por criar o medo, através de “estudos”   promovidos e pagos pelos próprios laboratórios, soburnando médicos de renome,   para diabolizar este famoso colesterol junto da população e dos médicos   prescritores.

O raciocínio parece lógico, como não poderia deixar de ser, se aceitarmos as   premissas: nas doenças cardiovasculares, existe frequentemente uma acumulação   de gordurana artérias, o colesterol é uma gordura, logo o colesterol é o   grande culpado destas doenças.

Por outro lado, descobriu-se que as estatinas baixavam os níveis de   colesterol, o que é verdade, logo conclui-se que baixando os níveis de   colesterol estariamos a baixar o risco de doenças cardiovasculares.

Tudo certo, excepto que a correlação directa entre o colesterol elevado e as   doença cardiovasculares não está provada, muitos outros factores existem. A   mortalidade global nunca baixou nos doente medicados com estatinas, o que   poderá ter baixado é a morbilidade para determinadas doenças das quais as   cardiovasculares, o que não é a mesma coisa.

O poder da persuasão contra o poder do raciocínio.

Através de estudos falsificados, todos pagos pela indústria farmacêutica, da   corrupção de certos médicos e da divulgação em grandes revistas científicas   controladas por essa mesma indústria, chaga-se a uma estratégia de   comunicação em que se utilizam argumentos lógicos e racionais para se induzir   a necessidade de consumir uma determinada substância medicamentosa.

Outro exemplo típico passa-se com a quimioterapia, para a qual os estudos   revelam que a mortalidade global não baixa ou de forma pouco significativa   com o seu uso, e neste último caso o que poderá melhorar são algumas formas   de morbilidade, o que mais uma vez não é a mesma coisa. Aqui confunde-se   voluntariamente a correlação inexistente entre a redução tumoral, que se   verifica com a quimioterapia, e o maior tempo de sobrevivência, que não se   verifica.

Muitos outros exemplos poderiam ser citados, o que importa aqui é salientar   que o tempo em que os investigadores estudavam a melhor maneira de curar ou   minimizar as consequências de uma determinada doença, isolados nos seus   laboratórios de fortuna, acabou.

O que temos é uma poderosa indústria farmacêutica, a terceira a seguir às   energéticas e financeiras, que promove fármacos que não se destinam a minorar   o sofrimento humano, mas a fazer dinheiro a qualquer custo, ou perpetuar   certas doenças rentáveis, tudo feito à custa dos doente, muitas vezes   prolongando as próprias doenças, tanto faz, o que interessa é o dinheiro.

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