POESIA AO AMANHECER – 208 – por Manuel Simões

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FRANCISCO BUGALHO

(1905 – 1949)

QUEIMADA

Lenta, ondulante, latente,

Fulgurante ou decadente,

A longa queimada vem,

Na faixa do horizonte.

Avança desde o poente,

Enche a noite e cala a fonte.

Tudo se cala, se encerra,

Em volta, na escuridão,

Toda a paisagem se aterra,

Não há estrela na amplidão:

– Que o lume, raso de terra,

Matou-lhe a cintilação.

Há cheiro a palha queimada,

A matos secos ardendo,

Gritos soando, na noite,

À caça, louca, correndo,

Sem saber onde se acoite,

À espera da madrugada.

E a minha noite é toldada

Deste trágico fulgor.

Não sei que vago amargor

Surge de nada pra nada;

– Parece trazer-me dor,

Ardendo, em mim, a queimada.

(de “Poesia”)

Pertenceu à revista “Presença” e a sua poesia, cujo tema é a paisagem natural e humana do Alto Alentejo, equilibra-se entre um sentido de modernidade e o lirismo tradicional. Publicou três livros de poesia: “Margens” (1931), “Canções de Entre Céu e Terra” (1940) e “Paisagem” (1947), depois reunidos no volume “Poesia” (1960), com alguns “dispersos e inéditos” e prefácio de José Régio.

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